terça-feira, setembro 26, 2006
Hoje tem Marmelada?
Hoje tem goiabada?
Não! É claro que não! Não existe goiaba na França... Mas marmelo tem, e eu acabei de fazer um panelão de marmelada! Estou realmente me superando!
Puxa! Dois meses sem escrever? Tanta coisa aconteceu nesse tempo...
A viagem ao Brasil foi extremamente cansativa por causa dos sustos com a Varig. E eles fizeram questão de nos deixar em suspenso até o último minuto! Tudo bem, já passou.
Agora já estamos contando os dias, literalmente, para a volta. Em 83 dias estamos partindo...
Às vezes fico contente, às vezes fico triste. Quero estar de volta ao Brasil, mas não quero passar pelo fim. Vai ser muito difícil. Tanto por questões práticas quanto por questões pessoais. Fizemos amigos, não criamos raízes, mas começamos a nos espalhar um pouquinho. Vivemos experiências maravilhosas e outras duríssimas. Crescemos muito. Foram três anos vividos intensamente em tudo o que tivemos de bom e de menos bom. Felizmente não tivemos nada de extremamente ruim, graças, tenho certeza, às orações e aos bons pensamentos de vocês!
Estou procurando aproveitar ao máximo os últimos instantes, com menos tempo para outras coisas como escrever por aqui, por exemplo. É uma pena... Por outro lado, tenho tido a oportunidade de ter momentos como esse de hoje: ir até a casa de uma amiga pra colher frutas e fazer geléia e marmelada. Tive direito até à colheita de champignons no jardim. Um luxo!
Por hoje é só. Estou bem cansada.
Até a próxima!
quarta-feira, julho 26, 2006
sábado, junho 17, 2006
Esqueci de mostrar pra vocês!
Ele me pediu pra fazer essa fantasia depois de ter visto uma igual na casa do Aksel, amigo da escola. Eu estava cheia de coisas pra terminar antes de a gente ir pro Brasil, mas não podia deixar de atender um pedido do pimpolho, né? Fui comprar os tecidos e, como, apesar do calor que tem feito, não estejamos enchendo a banheira com moedas de euros pra podermos nadar um pouquinho, eu tentei achar aquele que tivesse o menor número gravado na etiqueta!
Foram dois dias inteirinhos pra fazer o chapéu mais a roupa. Domingo e segunda, meio sem parar. Na segunda-feira, fim de tarde, eu comecei a aplicar as estrelas e a lua, nesse tecido prateado que é chatíssimo pra trabalhar. Eu não desisti! Queria terminar logo pra que essa fantasia não virasse mais um UFO na minha vida. Vocês não sabem o que é um UFO? É uma expressão que a gente usa entre patchworkeiras. Foi inventado pelas americanas e quer dizer UnFinished Objects, em português, objetos inacabados, ou seja, todos aqueles trabalhos que a gente começou mas não terminou. Pelo jeito esse é um fenômeno mundial entre as malucas que fazem patchwork: mil coisas começadas e não terminadas. Eu não sou diferente! Tinha um monte de UFOs quando a gente estava aí no Brasil e trouxe tudo pra cá, pensando, "já que vou ficar lá 3 anos sem fazer nada, então vou terminar tudo o que eu tenho começado!". Não só não terminei, como comecei várias outras coisas, o que quer dizer que a Nasa está jogando dinheiro fora com essa busca de UFOs pelo espaço. É só abrir o armário aqui de casa! (E de todas as que fazem patchwork aí pelo mundo...)
A regra de ouro para não dar à luz mais um UFO na sua vida é: comece e termine imediatamente! Enrolou uns dias, encostou num cantinho, pronto! Lá está mais um ser desses pra te atormentar o sono! É por isso que eu não queria deixar passar muito tempo da fantasia. Eu tinha de começar e terminar logo!
E assim foi. Tanto que na segunda-feira, uma da manhã mais ou menos (o que quer dizer que já era terça, mas tudo bem), eu dei o último ponto que fez parar no lugar a última estrela! Eu estava acabada de cansaço, mas feliz!
Como eu tive de fazer as aplicações a mão por conta de detalhes técnicos que não têm muita importância, elas estavam meio "gordinhas". Eu achei que tinha de dar uma passada a ferro pra assentar bem. Só que, uma da manhã, depois de dois dias inteiros, mais o cansaço, mais todo o resto, e sem contar a minha mais absoluta falta de senso, atenção e sei-lá-mais-o-que, liguei o ferro no último e, infelizmente, só percebi isso quando encostei ele na roupa e vi abrir um buraco!
É, eu também fiquei com vontade de chorar! Falei uns 10 palavrões, bati o pé no chão igual criança, olhei o buraco de novo, falei mais uns 50 palavrões, solucei, fiz beicinho e nada adiantou! Comecei a pensar no que fazer, mas só me vinham à mente idéias nefastas, desde jogar o ferro pela sacada, até a picar a fantasia em mil pedacinhos. Achei que o melhor era ir dormir...
No dia seguinte, mostrei pro Vidal e ele disse: "Coloca uma cauda aí nessa estrela, transforma ela num cometa e pronto! Nem mostra pra ele!". Eu achei uma ótima idéia e foi o que eu fiz...
Só que demorei uns dias, e a fantasia só não virou um UFO de verdade porque o Felipe ficava perguntando "Já tá pronta?" a cada uma hora e meia mais ou menos.
Enfim, eu terminei e chamei ele pra experimentar. Só que o danado é super observador e a primeira coisa que ele disse foi: "Olha só, tem um buraquinho aqui..." mostrando uma aberturazinha mínima que o ferro tinha feito na estrela do lado do buraco. Eu fiz um "Ahn? O que?" e fui chamando atenção pra outra coisa e puxando ele pra sacada pra poder tirar fotos. Ele foi, tirou as fotos, depois deu uma esticada na roupa e ficou olhando pra baixo meio pensativo. Eu perguntei o que era e ele disse: "Na fantasia do Aksel tinha esse cometa?". Eu só não gelei porque estava um calor do caramba. Já pensei que a fantasia que eu passei horas fazendo ia ficar pra sempre dentro do armário pra ser, quem sabe, abduzida por algum UFO. Eu conheço a peça. Ele não fala nada, mas simplesmente não usa mais a roupa, ou o brinquedo se ele não estiver impecável. Daí eu disse: "Claro que não! Mas é que a sua é especial! Esse aí é o cometa do poder!"
Se ele engoliu, não sei... Ainda não vi ele usando a fantasia...
sexta-feira, junho 16, 2006
Primeira noite do Felipe fora de casa!
CLARO QUE NÃO!
Ele foi convidado pra dormir na casa de um amiguinho da escola. Que sensação mais estranha essa... Eu quero mais é que ele se divirta muito, não tem coisa mais gostosa do que ir pra casa dos amigos...
Mas se ele me ligasse lá pela meia-noite dizendo "Mamãe, quero voltar pra casa!" acho que uma vozinha lá no fundo, mas bem no fundinho mesmo, toda escondida e fraca, quase afônica ia dizer: "Ai que alívio! Ele ainda precisa da gente..."
Eu preparei a mochila de manhã com pijama, roupa pra trocar, toalha de banho, escova de dente, um homem aranha fofinho e um tubarão de pelúcia que ele chama de Oscar e que dorme com ele todas as noites para "protegê-lo e evitar que ele tenha um pesadelo e acabe terminando a noite na nossa cama!".
Ele está crescendo! Ai! Que coisa... Não foi no mês passado que eu segurei aquele bebê todo molinho na maternidade que me olhava com aquela carinha de duende e disse "Bem vindo!"
Já sei que toda hora vou dar uma olhadinha no messenger pra ver se não tem chamado da Kim (a mãe do Louis, o amigo dele) e se o telefone está no gancho mesmo.
Como o tempo passa...
quarta-feira, junho 14, 2006
E foi o primeiro jogo...
terça-feira, junho 13, 2006
Vôos cancelados, coração paralisado...
Não é só pra assistir aos jogos da copa que eu vou ficar lembrando do Galvão Bueno falando "güenta coração"!!!
Já estamos comprando nossos bilhetes definitivos de volta... COM A TAM, é claro! Que eles também não inventem estripulias daqui até dezembro. Duas dessas a gente não aguenta...
quarta-feira, maio 31, 2006
Desculpa gente...
Acho que é porque está se aproximando a hora de ir embora, então estou querendo aproveitar os últimos momentos pra fazer tudo, e me angustio quando vejo mil coisas começadas, mil projetos abandonados... Isso sem contar em coisas mais práticas e menos poéticas como o meu fogão nojento de tanta gordura e a pilha de roupas pra passar já com neve no topo de tão alta!
Esses dias acordei determinada a diminuir pelo menos um pouco a pilha, não porque estivesse com muito peso na consciência, mas sim porque não tinha lugar pra colocar mais nada! Quando deu dez pra meia noite e eu não tinha nem passado perto da dita cuja, tomei uma decisão radical pra conseguir atingir meu objetivo ainda no dia em que tinha me proposto. E consegui diminuir a pilha de uns 30cm mais ou menos. E antes da meia noite!!! O que eu fiz? Tirei tudo do lugar e enfiei tudo de novo, mas apertando bem pra sobrar mais espaço em cima! Não é que deu certo? Só que isso foi há uns três dias. De lá pra cá foram mais umas quatro maquinadas e tá lá a danada nas alturas de novo!!!
Algumas novidades rapidinhas...
Ontem tivemos mais uma resposta de conferência, mas dessa vez foi recusado. Tudo bem, a gente teve muita resposta positiva nos últimos tempos e o povo lá de cima deve ter achado que era hora de dar uma baixada na nossa bola. De qualquer forma, mesmo com essa recusa, já está certo que vamos embora definitivamente em dezembro mesmo.
O Felipe já está com o primeiro dente molinho. É possível que em julho ele chegue por aí de janelinha! Ele está todo contente e fica mexendo no dente o tempo todo pra cair rápido. De um lado porque todos os amigos dele já trocaram vários dentes, ele é um dos últimos que falta. Mas de outro, e que cá entre nós eu acho que é o principal, é porque ele sabe do tal ratinho que passa e deixa umas moedas em troca do dente. Desde que ele começou a receber mesada e a comprar uns brinquedinhos, aprendeu rapidinho o valor do vil metal. Está quase virando mercenário já o danado!
A Ana Luíza está a cada dia que passa melhorando mais o vocabulário dela, abandonando o analuizês pra falar português e/ou francês que são coisas que a gente consegue entender. Às vezes ela tenta falar uma palavra e quando a gente não compreende ela fica louca da vida! Agora que estamos conseguindo entender o que ela diz, já está dando pra ver que os gens da informática passaram pra ela também! Esses dias cheguei no berço para acordá-la. Fiquei agradando as costas, fazendo cafuné e falando, até conseguir arrancá-la dos braços de Morfeu. Ela ainda de olhos fechados falou:
- Pipi mimindo? (tradução: o Felipe tá dormindo?)
Eu disse:
- O Fe tá dormindo...
Ela:
- Papai mimindo? (tradução: o papai tá dormindo?)
Eu:
- O papai tá dormindo...
Ela:
- Zizá mimindo!!!! (tradução: eu também estou dormindo, não me enche o saco!!!)
Tô bem arranjada...
Ela realmente está fazendo uma mistura de português e de francês. Algumas coisas ficam bem engraçadas. Não sei se vocês sabem, mas o "Oh lá lá" do francês é uma realidade e não mais uma coisa de filme. Eles realmente falam isso com freqüência e em várias situações que podem variar de surpresa até o mais profundo desagrado. Pois bem. A Ana Luíza é chegadinha numa reclamação, assim como o Felipe, e detesta quando alguma coisa que ela quer fazer não dá certo. Ela reclama mesmo! Uma das primeiras coisas inteligíveis que ela disse foi num dia em que ela queria fazer uma pilha de alguma coisa que eu não lembro mais o que era, só sei que a pilha se desmanchava o tempo todo. Depois de umas três tentativas frustradas ela saiu com essa:
- Oh lá lá!!! Saco!!!!
Quase morri de rir! Daí ela fechou a cara, me olhou bem brava e soltou:
- Popititutu muuuu mikitatibô!
Eu enfiei minha viola no saco e saí de perto. Com uma fera dessas não se brinca!
Bem gente, só passei pra não ficar sem nada no mês de maio...
No fim de junho estamos por aí. Claro que vou tentar escrever, mas não vou prometer nada. No meu caso, já sei que promessa não é dívida!
quinta-feira, abril 13, 2006
Casa nova, vida nova!
Enfim!!!
Casa nova, vida nova, bagunças novas!!!
Até que foi rápido pra gente voltar ao mundo normal... uma semana. Tá bom, não tá?
Agora estou aqui no meu novo quarto, escrevendo pra vocês no novo micro! Sim! Agora temos um novo brinquedinho em casa. Um computador que a universidade emprestou para o Vidal poder terminar o trabalho dele. Eles são legais, não são? Agora o Vidal vai poder trabalhar durante o dia, a noite, a madrugada, os finais de semana, e, se inventarem mais horas no dia, nessas horas também! Sem desculpa, sem choro, sem a menor possibilidade de dizer "pois é, o micro lá em casa é muito lento, as crianças estavam usando, fiquei sem internet, blá, blá, blá... " Nada disso!!!
A parte boa é que, durante o dia, enquanto O Vidal está na universidade, eu posso brincar um pouquinho com ele... Só que, como nada é perfeito, o BipBip (foi o nome que eu dei pra que ele não fique com ciúmes do Cágado que tem um apelido carinhoso especial) tem um teclado francês. Qual é o problema? O problema é que não sei porque os franceses decidiram que no mundo todo a posição das teclas no teclado é uma, mas na França seria diferente. Então o A é no lugar do Q, o Z é no lugar do W, a vírgula é no lugar do M, o M é no lugar do Ç e assim por diante. Pra fazer os números a gente tem de apertar o SHIFT e os símbolos são feitos quando a tecla está desapertada... O que a gente faz é enganar o teclado. A gente diz que está usando um teclado brasileiro. Daí fica melhor ainda: você olha pro teclado e vê um Q, mas quando aperta a tecla, sai um A! E mais! Não existe uma tecla para interrogação, então se eu quero fazer uma pergunta, nem que seja retórica, tenho de pressionar ALT mais 063 no teclado numérico. Dei uma boa espanada nas teias de aranha dos meus conhecimentos em informática (DOS ainda, alguém lembra disso?) pra lembrar qual era o código ASCII do ponto de interrogação. Um verdadeiro treinamento pra loucos!
O que eu tive de fazer também foi ressuscitar todas minhas aulas de datilografia da sétina série (sim! Eu fiz isso!!!) para digitar SEM olhar para o teclado! Ou então me acostumar ao teclado francês! Vou tentar não olhar... vamos ver no que vai dar! O Vidal tem vivido assim desde que chegamos aqui e está mantendo a sanidade, porque eu não conseguiria (ALT+063)? Ah! E não tem corretor em português então pode acabar escapando um errinho aqui, outro ali... vocês vão me perdoar, né?
Vamos falar da mudança!
Correu tudo super bem e sobrevivemos!!! Quem nos acompanha desde o início deve estar lembrado de que quando chegamos por aqui eu estava de barrigão e não conhecíamos ninguém, então o Vidal teve de carregar tudo sozinho, no muque! Dessa vez foi bem diferente! Primeiro eu não estou mais de barrigão... quer dizer, estou, mas agora não tem mais bebê dentro que justifique eu não botar meus bracinhos pra trabalhar. Oh, vida! Além disso, vejam como é a globalização! Fizemos uma aliança franco-méxico-brasileira e tínhamos carregadores de três nacionalidades! Antoine e Cédric representando a França, Jorge representando o México e o Vidal, representando terras verde-amarelas. Mesmo assim, ainda bem que morávamos no primeiro andar, e continuamos morando no primeiro andar! Os meninos sofreram!
Enquanto eles ainda não tinham chegado, eu mesma comecei ajudando o Vidal a carregar o caminhãozinho que alugamos. De novo, quem nos acompanha desde o início vai lembrar que foi durante a primeira mudança que percebemos o quanto os franceses são educados, já que todos os vizinhos que passaram pelo Vidal enquanto ele resfolegava escada acima com o fogão nos braços disseram "Bonjour!" com sorriso nos lábios e tudo o mais. Todos! Sem exceção. Educadíssimos! (Mas uma mãozinha que é bom... Nada!) O Vidal é que deve ter passado por mal educado porque carregando aquele peso todo ficava difícil responder "Bonjour", ainda mais sorrindo. Eles devem ter compreendido. Na verdade, compreenderam, sim. Tanto é verdade que agora a coisa foi diferente.
Enquanto descíamos a mudança escada abaixo vários vizinhos passaram por nós. Dessa vez eles não se contentavam em só dizer "Bonjour!" com um sorriso nos lábios, mas paravam pra perguntar se estávamos nos mudando, pra onde, porque assim tão depressa, se estávamos de partida para o Brasil, mas que pena que vocês vão embora, etc., etc., etc. Muitas vezes a gente parava no meio da escada com uma caixona nas mãos, o suor escorrendo pela cara e eles ali, naquela conversa amigável, papo vai, papo vem, nossas costas começando a reclamar, as pernas já resignadas nem reclamavam mais, simplesmente pararam de mandar mensagens ao cérebro e, no fim, "Au revoir!" sempre com o sorriso nos lábios! Realmente, educadíssimos!
Teve uma dupla que foi muito legal. São dois senhores, um que mora no último andar, outro no penúltimo, em apartamentos que ficavam exatamente acima do nosso. Eles eram sempre muito simpáticos. Teve até um dia em cada um deles deu uma bola de futebol para o Felipe. O do último andar, em particular, era quem me mantinha em dia sobre as fofocas do prédio (é... no primeiro mundo a fofoca entre vizinhos também corre solta), sempre que a gente se encontrava na escada ele tinha uma historinha de alguém pra contar... Pois bem. Eles foram os que pareceram mais penalizados com a nossa partida. Quando eles nos viram carregando o caminhãozinho disseram: "Não! Vocês vão se mudar? Assim sem avisar?" E daí começaram o bate-papo. Dois homenzarrões danados de fortões e o Vidal, coitado, embaixo de uma porta de armário, já meio azul e nem uma palavrinha do tipo "Tá muito pesado isso aí?". Bem, mas o mais legal foi que eles viraram pra mim uma hora e disseram: "Que pena que vocês vão sair daqui! A gente não vai mais sentir o cheiro bom da sua comida!" Que tal essa! Hein, hein? Eles quase tiveram de sair pulando pra me pegar porque nesse dia ventava muito e eu praticamente saí voando de tão inchada! Eu tô falando pra vocês, não tô? Pensei até em desistir da mudança depois dessa, mas achei que não valia a pena. Principalmente porque... Não! Acho que não... Será? É que... Não!!! Não tem nada a ver... Ou será que... Bem, vou contar só pra vocês... É que a gente mudou no sábado, né? Então, era sábado e também era... primeiro de abril... Será que eles disseram isso... Não!!! Acho que não! Eles pareciam bem sinceros! Era verdade sim! E o Vidal estava do lado de testemunha! E eles nem colaram um peixinho de papel nas minhas costas (é assim que eles comemoram o primeiro de abril por aqui: colam um peixinho de papel nas costas uns dos outros). Era sincero, tenho certeza!
Vocês podem estar aí se perguntando: "Mas será que não existem empresas de mudança na Europa?" Claro que existem! Só que elas são reservadas pra quem tem salário em Euro, o que não é o nosso caso! Pra gente a solução é fazer justiça com as próprias mãos mesmo. E com todas as bondosas mãos alheias que se oferecerem, mesmo que de leve, a nos ajudar! Além das ajudas pra carregar, ainda temos de agradecer a Mariana (esposa do Jorge) que ficou me ajudando a encaixotar as coisas em casa, a Kim que ficou com o Felipe e a Nadine que ficou com a Ana Luíza. Sem todos esses anjos da guarda as coisas teriam sido muito mais difíceis!
Bem, foram três ou quatro viagens de caminhãozinho até trazer tudo de lá pra cá. E eu fiquei me perguntando... Como é que a gente consegue juntar tanto bagulho em tão pouco tempo?!!! Que loucura!!! Depois que terminamos tudo o Jorge e a Mariana nos convidaram pra comer uma pizza na casa deles porque na nossa casa nova não dava nem pra entrar direito e na velha não tinha onde sentar! Tem fotos, é claro, vou colocar tudo no Flickr em seguida. (Só não tem fotos ainda da casa arrumada...)
Depois da pizza voltamos pra casa. Nova! Não dava nem pra curtir tamanha era a zona e o desespero de pensar em botar tudo aquilo em ordem! Felipe e Ana Luíza já chegaram dormindo. O Vidal ficou no carro enquanto eu subi e arranjei um espacinho pra esticar o colchão do Felipe e armar o berço da Ana Luíza. Já eram umas dez da noite, e embora aquele sábado tivesse sido pesado como vocês podem imaginar (pega caminhão, carrega na loja as coisas que tivemos de comprar, carrega o caminhão quatro vezes, encaixota as coisas, descarrega caminhão, e, pra ajudar, era dia de carnaval na escola do Felipe, nem pensar em faltar!!!) ainda chegamos e montamos os armários do nosso quarto, a nossa cama, e praticamente montamos um armário da sala. Tinha confete pra todo canto, mas nosso clima não era de muita festa não! As olheiras que o digam! Enfim, era uma e meia da manhã mais ou menos quando achei forças e o telefone embaixo de umas cinquenta caixas e consegui ligar para o Brasil: "Mamãe: mudei!"
Os dias seguintes foram gastos totalmente em colocar as coisas em ordem: montar tudo o que estava desmontado, guardar tudo o que estava encaixotado, trazer o resto das coisas que tinham ficado ainda no outro apartamento... Comida? Só na quarta-feira à noite porque não tínhamos o tubo pra ligar o gás no fogão. Assim mesmo, foi uma gororoba horrorosa que, se não chegou a ser salada temperada com detergente como quando chegamos aqui, também ficou a anos-luz de distância dos meus quitutes atuais. Tudo bem, na quinta-feira na hora do almoço eu já me redimi!
Nesse momento as coisas estão quase normais: ainda tem um armário que precisa ser organizado, eu ainda não consegui fazer o faxinão que gostaria nesse apartamento novo, nem o faxinão de saída do outro. A gente ainda tem um tempo pra entregar as chaves e fazer a vistoria de entrega. Antes disso ainda vamos ter de recolocar o papel de parede que foi arrancado por lá. Olha, a nossa experiência aqui em trabalhos de marceneiro, pedreiro, eletricista, etc. ainda vai dar uma boa história!
Enfim, estamos bem instalados e eu não me canso de olhar pra essas paredes lisinhas, sem uma florzinha sequer! Um verdadeiro sonho! É verdade que voltamos às eras da cortininha de plástico e que tem uma banheira que estava um HORROR de tão imunda, mas agora que eu já fiz minha limpeza básica de chegada, ela faz a festa dos meus dois peixinhos que se divertem um monte na tal banheira. Com cortininha de plástico e tudo o mais! Sem contar os DOIS quartos!!! Essa é a melhor parte! E tem mais: agora conseguimos nos sentar à mesa pra comer colocando pratos, copos, garrafa de suco E panelas na mesa! Antes isso era impossível! Na mesa que nós tínhamos mal cabiam os quatro pratos com quatro copos e só! A garrafa de suco geralmente ia parar no chão! A antiga mesa virou mesa de televisão e a nova pode ser aumentada e chegar até DOIS METROS! Acreditam? Alguém aí me manda um beliscão, nem que seja virtual, porque que acho que tô sonhando!
Bem, não posso deixar de terminar esse post de boas novas com mais boas notícias! Sim! Uma overdose delas!
Vocês lembram que estávamos esperando duas respostas de artigos para o dia primeiro de abril? Tchan, tchan, tchan, tchan... Os DOIS foram aceitos!!! E tem mais! Em um deles, o artigo do Vidal foi eleito o melhor da conferência! Ainda bem que a gente tinha que fazer a mudança naquele dia, assim as caixas e as portas de armário nos seguravam no chão, porque a tendência seria sair voando mesmo! Enfim todas as muitas horas de trabalho, suor, suspiros, lágrimas e ranger de dentes, além de muita oração daqui e daí estão dando os seus frutos! Eu sabia que ia ser assim!
Vou ver se eu consigo publicar as fotos agora...
Pra acabar, como nem tudo podia ser notícia boa, vai um pedido de torcida... Vocês sabem que a gente vai pro Brasil em julho. As passagens já estão compradas. Só que, isso mesmo, são da Varig!!!! Sentiram o nosso drama? Vamos ficar nessa corda bamba até irmos e voltarmos... Por isso a torcida! A gente quer ir pro Brasil em julho!!!
PS.: Como estamos de casa nova, carro novo, sala nova pro Vidal na universidade, resolvi dar uma cara nova pra esse blog também! Espero que vocês tenham gostado!
terça-feira, março 28, 2006
quinta-feira, março 23, 2006
Nossa mudança está praticamente confirmada para o dia 7 de abril. Nem acredito!!! Mas o que eu realmente não acredito ainda é que o outro apartamento tem todas as paredes BRANCAS!!! Fim dos papéis de parede! Não é um sonho? Mas como esses bandidos não poderiam deixar de me incomodar até o fim, estamos aqui enrolados com eles. Exatamente neste momento o Vidal está ali, formão em punho, arrancando pedacinhos milimétricos de papel da parede. Hoje já teve a vez do Felipe, a minha, agora é o Vidal... Vamos ter de arrancar o papel de uma das paredes, colocar um outro porque esse estava devidamente "decorado" pelas crianças e o próximo morador, por mais legal que seja, não vai querer saber desse tipo de arte moderna!
Agora mesmo eu estava ali arrancando o papel (com o maior prazer, diga-se de passagem) e pensando "Que injustiça! Fiquei dois anos e meio convivendo com essa coisa horrorosa na parede e justo na hora de sair vou trocar..." Na verdade não é bem trocar, o morador anterior deixou uns restos de papel lá na cave e esperamos que ele vá ser suficiente. Se não for, vamos comprar alguma coisa que "orne" com o que já está ao lado e assim vão ser sete papéis diferentes! Um a mais, um a menos... Ninguém vai nem notar!
Segunda notícia: mudamos de carro. Na verdade, tivemos um pequeno acidente há um mês e meio e ficaria mais caro consertar do que pagar o valor do carro e foi isso que a seguradora decidiu. O carro anterior era "economicamente irreparável" para usar as palavras deles. Uma outra forma de dizer perda total. Mas calma! Essa expressão perda total aí no Brasil tem um peso muito maior do que aqui. Vou explicar.
Aqui eles não mandam o carro pra um martelinho de ouro, não. O que eles fazem é trocar todas as peças que foram danificadas. No nosso caso o acidente foi bobinho, mas estragou na frente, atrás e do lado do motorista. Como o carro antigo era BEM antigo, trocar essas coisas ia acabar custando mais do que o preço do próprio carro. Vou contar de uma vez como foi esse acidente pra ninguém ficar preocupado!
Estávamos indo à casa de uns amigos num sábado à noite. No meio do caminho chegamos a ele, o famigerado e onipresente, engarrafamento. Tudo por conta dessa nova linha de ônibus! O Vidal foi chegando perto da fila de carros parados, diminuindo totalmente, praticamente parando mesmo e eu lembro de estar pensando com os meus botões "mas até num sábado à noite esse trânsito é um horror?" Acho que não deu nem tempo de terminar o pensamento quando sentimos a batida atrás. O que fez nosso carro bater no carro da frente. Isso mesmo! Um engavetamento, com a gente no meio. Demorou uns segundos até entendermos bem o que tinha acontecido, olhar pra trás e ver se as crianças estavam bem e, tanto o acidente foi bobinho, que o que de mais grave aconteceu foi que eu tomei um banho de creme! Explico.
Eu tinha feito uma sobremesa chamada Saia e Blusa pra levar na casa dos nossos amigos e estava segurando a travessa na hora da batida. Pois bem. A sobremesa deveria estar congelada, mas como eu deixei pra fazer na última hora, o creme de cima (suspiro misturado com creme de leite) ainda estava bem líquido. Resultado? Creme no painel, no chão, na minha mão e, o pior, creme na minha calça jeans! Calça essa que eu estava usando pela primeira vez! E que a minha mãe tinha me mandado pelo correio do Brasil! Fala sério! Que perseguição!!!
O Vidal desceu do carro pra ver o tamanho do estrago e eu ali melada, já sentindo o gelo nas pernas porque o creme não estava congelado como deveria, mas estava gelado como eu não queria! E eu não podia me mexer, tirar o sinto sair dali. Lembrei que eu tinha deixado uma sacola cheia de roupas pra dar no porta-malas e numa das vezes que o Vidal veio até dentro do carro eu pedi que ele pegasse qualquer coisa lá dentro pra eu poder limpar pelo menos um pouco. Quebrou um galho a camiseta do Felipe, mas foram uns 40 minutos na mesma posição, travessa em punho, até que todos os documentos fossem preenchidos todas as verificações fossem feitas... E aquele creme gelado grudando em tudo! E a minha calça novinha... buáááááá
Bem, já passou. Já compramos um outro carro e tudo está normal novamente. Mas a compra desse carro... Vai ficar pra um outro post!
Quanto aos artigos do Vidal, estamos esperando quatro respostas, com mais duas ou três submissões possíveis para os próximos meses. Vou contar pra vocês que doutorado é pior que gravidez: a gente espera, espera, espera... Antes mesmo de ter uma resposta já manda outro e começa a esperar... Mais ou menos como ficar novamente grávida antes de ter nascido a primeira criança. Uma loucura! É uma espera sem fim, um verdadeiro teste de paciência. Acho que Buda teria se dado bem num doutorado... Ele tinha um jeitão de calmo, não tinha? Tirando ele, deixa eu ver... talvez Gandhi. E é só! O resto da galera do mundo, é preparar os cotocos das unhas e um banquinho bem confortável!
As duas primeiras respostas já são para o dia 1º de abril e é verdade isso! Só espero que eles não mandem uma resposta assim "Temos o prazer de informar que seu artigo foi aceito" para logo em seguida mandar outra dizendo "Brincadeirinha! HAHAHA, primeiro de abril!" Não vai ter graça nenhuma!
Puxa! Queria contar pra vocês coisas das crianças... Mas já passa de meia noite e eu preciso esticar o esqueleto cansado de tanto arrancar papel da parede.
To escrevendo pouco, eu sei. Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa. Shlept! (são as chibatadas que eu mesma me dou). E sinto que vai ser assim mesmo... Não me levem a mal, mas estou aproveitando os últimos momentos nessa vida boa de lavar, juntar brinquedo, passar, juntar brinquedo, cozinhar, juntar brinquedo, limpar criança, juntar brinquedo e quando não estou juntando brinquedos, estou cultivando minhas mãos! Estou fazendo a coisa que eu mais adoro que são trabalhos manuais.
Eu já contei pra vocês que virei mulher rendeira? Pois é. Vou poder ensinar todo mundo a fazer renda por aí e dispenso as aulas de namoro porque essa parte também já aprendi, obrigada! Faço duas técnicas diferentes, vou mostrar fotos dos trabalhos quando publicar a já tradicional (embora tenha acontecido só uma vez) página com as fotos dos meus trabalhos de 2005/2006. Além da renda eu faço arte floral. É o máximo! A gente passar duas horas arrumando as flores e as folhas no vaso a fim de que elas pareçam que foram juntadas de qualquer jeito! Que injustiça a minha! Tem uns buquês bem elaborados, vocês vão ver. E claro, além de tudo isso, ainda tem o amado e idolatrado patchwork que eu não abandono nunca, e minhas incursões culinárias que avançam a passos largos! E toma tempo a tal da cozinha, viu? Principalmente pra lavar a louça depois! Oh vida!
Podem brigar comigo! Eu aceito! Mas estou pensando no futuro. Nenhuma vidente no mundo é capaz de me dizer o que eu vou fazer quando voltarmos... E se eu ficar desempregada? Alguém aí precisa de cozinheira? Tô me candidatando.
Tchau!
PS.: o Blogger estava fora do ar quando fui publicar o post. Só vou poder fazer isso amanhã de manhã! Tem alguém aí não querendo que eu escreva! Fui!
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Era uma sexta-feira, véspera das férias de Natal e eu tinha de ir ao centro de Nantes pra comprar um presente de aniversário para um amigo e uma lembrancinha para a babá da Ana Luíza.
Depois de deixar o Felipe na escola, peguei o caminho do centro imaginando o engarrafamento monstruoso que eu ia enfrentar: sexta-feira, véspera de férias, aiiiiiii, eu ia demorar no mínimo uns 50 minutos pra chegar perto do centro. Até me arrependi amargamente de não ter pegado um travesseirinho pra cochilar nos intervalos entre uma parada e uma andada! Esse horário das nove da manhã é o pior de todos porque é justamente o momento em que todo mundo está INDO pra Nantes. Depois só fica ruim assim lá pelas quatro da tarde, no sentido inverso, quando todo mundo está VOLTANDO. Mas depois do que tinha acontecido uns dias antes eu nem cogitei a possibilidade de ir de trem! Preferi encarar o engarrafamento.
Só que, para o meu mais profundo espanto, em exatos 12 minutos eu cheguei ao centro! Nada de engarrafamentos, trânsito super fluido, nem acreditei! Na mesma hora eu imaginei: “É claro! Já está todo mundo lá, só vou achar vaga no último buraco do sétimo andar inferior do estacionamento, vaga essa que eu vou disputar a tapas e depois vou ter de me acotovelar com a horda de pessoas desesperadas nas ruas fazendo as últimas compras de Natal! Tudo bem. Vou suportar!”
Entrei no estacionamento preparada pra descer a rampa em espiral até o fundo (sete andares pra baixo da terra, não gosto nem de pensar muito), só que, nem bem saí do primeiro nível e tinha dezenas de vagas me aguardando! De frente pra entrada sem precisar nem manobrar. Será que eu tinha mesmo levantado e saído da cama? Será que não era um sonho?
Fui andando pela rua. Temperatura amena para um início de inverno, tinha até uns tímidos raios de sol que apareciam de vez em quando nas ruas inacreditavelmente vazias!
Para o nosso amigo Antoine eu tinha imaginado comprar um livro. Vocês sabem, nosso orçamento aqui é gordo como um faquir de dieta, e o que eu quero comprar geralmente custa mais do que tinha previsto, por isso faço muita pesquisa antes de gastar nossos parcos Euros. Naquele dia não foi diferente: tive de fazer muita pesquisa e visitar várias livrarias porque o livro que eu queria dar pra ele era barato DEMAIS! Ficaria até chato! Meu problema foi achar um outro livro pra completar o presente. Não podia ser verdade...
Comprei dois livros e, vocês não vão acreditar, fui tomar o tão famoso café! Aquele que naufragou na tempestade no dia do meu aniversário. Dessa vez achei um café, com mesinhas na calçada que os proprietários tiveram a brilhante idéia de cercar com uma armação de plástico e de colocar aquecimento! Enfim realizei meu sonho de café-na-mesinha-na-calçada-com-livro! Com livro, sem vento, sem chuva. E o café estava bom.
Ainda faltava o presente da babá. Achei uma coisa super legal e exatamente do preço que eu pensava em gastar. Eu realmente estava ficando cada vez mais impressionada!
Já no fim do dia, fui ao mercado. Logo na entrada tinha uma máquina pra gente passar um cartão e ser sorteado com vales-compra. Parei na frente da máquina com meu cartão na mão e revivi todo o dia: nada de engarrafamento, estacionamento vazio, presentes baratos (e bons!), café sem chuva... Achei que aquele era o dia. Eu NUNCA ganho nada em sorteio, a não ser, é claro, quando eu NÃO quero o prêmio.
Parênteses. Uma vez comprei uma rifa de um colega, só pra ajudar. Rifa de um caiaque. O que eu ia fazer com um caiaque? Como eu nunca ganho mesmo, comprei a rifa e... ganhei o caiaque! Demorei um ano pra me desfazer daquela coisa! Fecha parênteses.
Como aquele parecia ser o dia da sorte (se alguém aí leu o último livro do Harry Potter vai me entender: parecia que eu tinha tomado a poção Felix Felicis!) resolvi arriscar. Passei o cartão. Fiquei olhando pra maquininha. Luzinhas piscando. Som de tambores sintetizados... Trrrrrrrrrrrrrrr... Parabéns! Você acaba de ganhar um cupom de 5 Euros! Se nem vocês estão acreditando no que eu estou contando, imaginem eu!
Realmente era um espanto! Terminei as compras e estava indo pro carro quando passei em frente a uma banca de jornais onde se vendem também tickets de loteria. Como as raspadinhas. Pensei: “Se tem um dia em que eu posso ganhar, esse dia é hoje.” Comprei uma raspadinha, enfiei no bolso e fui pra casa.
Guardei todas as compras, sentei à mesa da cozinha e peguei o bilhete no bolso. Fiquei olhando pra ele. Prêmio máximo: 1 milhão de Euros. Evidentemente eu nem sonhava com tanto, mas, quem sabe um premiozinho menor, né? Eu olhava pro bilhete, ele olhava pra mim... Enfim, resolvi raspar, afinal já era quase meia-noite e o dia estava acabando, eu não podia vacilar. Peguei a chave do carro e fui raspando, raspando... Tinha que dar três vezes o mesmo número pra ganhar aquele valor. O primeiro que apareceu foi 1000. O segundo, mil também! O terceiro... 100...
Também já seria querer muito, né? Era sorte demais pra um dia só... Não adianta! Eu e o Vidal só ganhamos dinheiro trabalhando mesmo. Pelo menos eu tenho uma história sem atropelos pra contar pra vocês! Gostaram? Ou será que vocês ficam MESMO torcendo pelos nossos micos! Hein?!
terça-feira, janeiro 31, 2006
Feliz Ano Novo!!!
Ahnn? O que? Ah! Não é 31 de dezembro?! Já é 31 de janeiro?!!!!!! Mas que coisa! E eu nem percebi...
Falando sério e numa linguagem bem didática além de super científica: o bicho tá pegando por aqui! Nada de grave, mas com certeza algum engraçadinho andou roubando horas dos dias, não é possível! Como fiquei quase dois meses sem dar notícia, vou compensar dando várias delas hoje...
O fim de ano foi bem... Minha mãe veio ficar um mês conosco e nós fomos até o leste da França. A idéia foi minha. Eu disse pro Vidal: “Já que vamos estar por aqui mesmo, então eu quero ter um Natal como a gente vê em decoração de shopping. Neve pra tudo que é lado.” A cidade escolhida foi Strasbourg e realmente a gente se sente dentro de um presépio. O problema foi, justamente, a tão famosa e desejada neve...
Um estrangeiro que vai pro Brasil e tenta sambar é ridículo, não é? Então porque é que a gente acha que pode enfrentar a neve tendo vivido a vida toda longe dela? Fica igualmente ridículo, posso garantir pra vocês. Pelo menos a gente não tentou esquiar, aí sim o mico seria geral! Um dia (se o Paulo e a Lígia me permitirem) eu vou contar nossa experiência nesse tipo de esporte, mas vai ser em outra ocasião.
Nos dois primeiros dias não tinha nada de neve, mas, pra compensar, nos dias seguintes nevou um monte como não acontecia há vários anos! Antes de sair a gente se informou com os “nativos” pra saber se precisaria de algum equipamento especial de neve e o que ouvimos como resposta foi: “Não, imagina... Vocês vão passar só por auto-estradas e cidades grandes. Esse tipo de pista é preparada pra não acumular, não precisa nada de especial, não.” Juro que não pensamos coisas muito gentis sobre o pessoal que nos disse isso quando estávamos em plena tempestade de neve, no meio de uma auto-estrada, vendo os carros saírem da pista na nossa frente, levando uma hora e meia pra andar 50Km. Se existe o record de pais nossos e aves marias por segundo, eu bati! Mas no fim, tudo acabou bem e isso é que é importante!
Depois de Strasbourg nós fomos até Helmstedt na Alemanha. Essa foi realmente uma das coisas mais legais que já me aconteceram e que eu jamais poderia imaginar! Graças ao Orkut, uma amiga do colégio, chamada Alessandra, me encontrou nessas quebradas cibernéticas da vida. Foi no início do ano passado. E-mail vai, e-mail vem, ficamos sabendo que éramos “vizinhas”. Ela está casada, tem dois filhos e mora na Alemanha (o marido é alemão). Como já tínhamos programado ir até Strasbourg no Natal, eu achei que não custaria nada dar um “pulinho” de 600Km pra ir até a casa dela. Fazia 20 anos que a gente não se via! Foi realmente um momento MUITO legal!
Não dá pra descrever o quão bem eles nos receberam! E até que conseguimos nos comunicar, mesmo com a barreira da língua. O Pucky, marido da Alessandra, não fala português... ainda (Sei que um dia ele vai aprender ;-)). O Phillip (olha a coincidência dos nomes dos nossos pimpolhos!), o filho mais velho deles, compreende alguma coisa e fala algumas palavras. E a Giuliana, a filha mais nova, fala português o suficiente pra gente se comunicar. Fiquei sabendo que o nome dela foi escolhido em minha homenagem e vocês não podem imaginar o quanto fiquei emocionada com isso! Ela e o Felipe já se deram bem de cara e brincaram muito! Os dois têm 20 dias de diferença de idade. E o Felipe ficou extremamente impressionado com o Phillip, com as várias medalhas de natação que ele tem no quarto, com o quanto ele é aplicado nos estudos... Posso dizer que o Phillip virou o ídolo do Felipe! De minha parte, decidi aprender alguma coisa de alemão. Nem que sejam algumas palavrinhas... Quando eles vierem nos retribuir a visita quero poder trocar algumas frases sem (muita) mímica com o Pucky! Realmente, foram dias muito legais que vão ficar pra sempre na memória e no coração.
Na volta pra França, mais neve. MUITO MAIS neve! Chegamos a Nancy e a cidade inteira tinha virado pista de patinação no gelo. Sem exagero nenhum não tinha nenhum pedaço de asfalto descoberto. Era tudo com uma grossa camada de neve por cima e pra achar o endereço do hotel, depois de 11 horas de viagem, não foi nadinha divertido. A temperatura naquele momento era de agradáveis onze graus! Abaixo de zero! No hotel nos desaconselharam colocar o carro no estacionamento, já que pra entrar era uma rampa e, vocês sabem, pra baixo, todo santo ajuda. Mas pra cima. Acho que nem São Pedro, que naquele momento devia estar se vendo louco com nossos próprios pedidos de “Tá bom! Ta bom! Chega de neve!!!”. O importante é que, mais uma vez, chegamos sãos, salvos e congelados. Detalhe. Tudo bem.
Último dia de viagem, já na volta pra casa, chegamos a Rouen. Era 31 de dezembro, dia de ano novo e é claro que a gente não esperava saravá na beira da praia, principalmente porque a cidade não fica à beira mar. Mas nunca podíamos imaginar o tipo de Ano Novo que teríamos...
Tivemos uma sorte danada de achar um restaurante aberto perto do hotel, com um pessoal super simpático pra atender e uma comida muito gostosa. Obviamente não foi uma ceia de ano novo com lombo recheado, farofa e muita fruta tropical, mas quebrou um bom galho a nossa comidinha chinesa...
Daí, próximo de meia-noite, fomos ao centro da cidade procurar a queima de fogos. Ano novo sempre tem queima de fogos, né? Até em Quixeramobim do Oeste deve ter queima de fogos no ano novo, porque em Rouen não teria? Demos uma olhada nas margens do rio, mas não vimos nada. Fomos até o centro da cidade e estacionamos o carro do lado da catedral, que é famosa e realmente impressionante. Iluminada à noite é ainda mais bonita do que de dia, só que, nada! Descemos pra andar ali pelas imediações. Chegamos à praça em frente à catedral e vimos um grupo de pessoas tocando uma música bem animada. Ah bom! Então ia ser ali.
Não tinha muita gente além dos músicos. Algumas pessoas, nós inclusive, começaram a se aproximar. Deu pra notar que os músicos se juntaram meio por acaso, ou seja, não era nada preparado pela prefeitura da cidade, por exemplo. Quem chegou por ali, mais uma vez, nós inclusive, também veio meio perdido, meio sem rumo. Algumas garrafas de vinho que passavam aqui e ali mostravam que a alegria da moçada era meio inspirada por Baco. E o tempo foi passando, passando... A Ana Luíza não quis nem saber: caiu na gandaia ali mesmo. Dançou a valer. Só que o tempo passava, e já estávamos perto da meia noite, quando então...
10... 9... 8... 7... 6... 5... 4... 3... 2... 1... e... NADA!
Ouvimos uns três buscapés que alguém soltou de uma janela, e SÓ! Pode até ser que não tenha sido nem um buscapé mesmo, mas alguém com um ataque súbito de flatulência, mas não quero nem pensar nessa hipótese. Se teve queima de fogos na cidade, foi silenciosa e escura. Talvez seja alguma técnica moderna, sei lá. Mas os chineses inventaram há pólvora há milhares de anos e eu sempre ouvi dizer que não se mexe em time que está ganhando. Até pode ser que fogos silenciosos e escuros sejam mais modernos, né? Vai saber! O que eu sei é que esse foi o ano novo mais estranho que eu já passei na minha vida!
Andamos ainda um pouco pelo centro, meio inconformados, para enfim nos resignarmos e voltarmos ao hotel. Adeus 2005, bem vindo 2006!
2006 começa cheio de novidades! A primeira delas: vamos para o Brasil em julho!!!
Tudo bem, sei que a grande maioria dos nossos quatro leitores deve estar se dizendo: “Mas que novidade é essa?! A gente sempre soube que eles voltariam em julho de 2006!”. A novidade, moçada, é que a gente vai... mas volta! É isso mesmo. Vamos dar uma espichada na nossa aventura francesa. Até quando? Bem, eu só vou poder responder a essa pergunta quando estivermos dentro do avião de volta... Até dezembro de 2006, com certeza ficamos por aqui. Mas existe a possibilidade de termos de ficar até junho de 2007. Isso quer dizer que a data da nossa volta definitiva ao Brasil é um mistério tão grande quanto o terceiro segredo de Fátima, que é tão secreto que eu ouvi dizer que foi revelado, mas até hoje eu não sei do que se trata!
Por conta dessa prorrogação com gol de ouro, decidimos de uma vez por todas mudar de apartamento. Um quarto só, com a Ana Luíza crescendo, não dá mais. Só que uma mudança pra gente não é uma coisa assim tão simples... Envolve buscas, avalistas, propostas, documentos, papéis, enfim, uma função! Depois de três semanas de altos e baixos tivemos hoje a resposta de que os proprietários dos dois apartamentos pelos quais nos interessamos aceitaram a nossa proposta de pagar um ano de aluguel adiantado e, assim, não precisar de avalista. Agora é a nossa vez de decidir.
Portanto, galera, o hotel Martins está ampliando instalações e prorrogando o prazo de atividade. Quem se animar, ainda está em tempo de vir experimentar as minhas inigualáveis e modestas galettes! A mudança deve acontecer durante o mês de março, mas ainda não sabemos bem ao certo.
Vou contar uma coisa pra vocês. Eu sou uma pessoa que precisa da segurança do planejamento, preciso saber o que, quando, como e onde as coisas vão acontecer pra ficar tranqüila. Então vocês podem ter uma idéia do meu estado atual: vamos ficar mais, mas não sabemos até quando; vamos nos mudar, mas não sabemos exatamente pra onde nem em que dia. Das duas uma: ou eu me acostumo com o imprevisto, ou enlouqueço de vez! Vou tentar a primeira opção, vamos ver no que vai dar... Qualquer coisa vocês vão preparando uma camisa de força em patchwork pra mim pra quando a gente voltar...
E ainda tem mais!!! A parte boa ficou para o fim...
Nem sei mais em que pé estava a contagem das publicações do Vidal, acho que estávamos em duas, não é? Pois bem, nos últimos meses, Tam Tam Tam (ouviram a musiquinha do Senna?) a coisa deu uma acelerada e agora ele está com CINCO publicações! Legal, né? Fiquei acumulando pra contar tudo de uma vez! As rezas por aí estão dando resultado! Muito obrigada! Em compensação a nossa pança por aqui está só aumentando porque com tantas brigadeiradas a coisa já está começando a ficar feia! Acho que vamos ter de mudar de comemoração...
Essa quantidade de publicações quer dizer que o trabalho está bem encaminhado, mas, infelizmente, não quer dizer que já está no papo. Não! Com a gente nada é simples, quanto mais complicado melhor. Por isso, não vou nem tentar explicar como é que funciona um doutorado porque é necessário já ser doutor pra conseguir entender essa loucura! Só vou dizer por enquanto que as coisas estão no rumo e que tudo vai bem!
Bem, por hoje era isso. Foi bastante, né?
Estou com muitas histórias na cabeça, esperando o momento de saírem de lá e pularem para a tela do meu micro. Mas o tempo... ah, o malvado tempo... Quero fazer um esforço pra escrevê-las ainda antes da mudança. Não vou prometer nada, porque já cansei de fazer promessas nesse blog e não cumprir! Andei relendo coisas passadas e fiquei com vergonha de mim mesma. Quase me filiei a um partido político pra me sentir mais entre iguais (na turma dos que prometem e nunca cumprem...). Só estou tranqüila porque sei que na França não tem PROCON e eu, por enquanto, estou livre de processos por propaganda enganosa. Como eu disse agora há pouco, eu amo a rotina, mas minha rotina por aqui tem sido a completa falta dela... Vai ver que eu estava mesmo precisando de mais essa aprendizagem na minha vida...
Assim que eu fizer o post (é o termo “técnico” pra essas coisinhas que eu escrevo por aqui nesse blog), vou atualizar as fotos, incluindo as fotos da viagem. Prometo!
Ih! Esqueci e fiz de novo!
Fui!
segunda-feira, dezembro 05, 2005
Começou com um despertador que não funcionou e nos fez perder a hora...E meu dia era cronometrado. Várias coisas pra fazer de manhã, tudo rotina, mas à tarde tinha um compromisso diferente. Eu me inscrevi num grupo de uma associação que faria uma visita a uma exposição em um museu no centro de Nantes. O grupo se reuniria no museu às quatro da tarde.
Como a cidade aqui pro lado onde moramos está em obras por conta de uma nova linha de ônibus e que os engarrafamentos são impossíveis, eu tinha decidido ir de trem para o centro. Trem mesmo. Eu nunca tinha usado essa forma de transporte porque não sabia que existia por aqui, pensava que ele era reservado para a circulação entre cidades mais distantes. Eu achava que a gente tinha só ônibus (que não adianta muito, já que eles andam no meio do mesmo engarrafamento que os carros) e o bonde elétrico (que a gente chamada de tramway ou tram, para os íntimos). O tram é quase como um metrô: não atrasa, não fica em engarrafamento, mas a estação é meio longe aqui de casa e o estacionamento que tem do lado é tão lotado que não tem a menor chance de a gente conseguir um lugar. Daí eu descobri o trem: a estação fica bem pertinho da casa da babá da Ana Luíza, tem estacionamento ao lado que não fica cheio e, mesmo se ficasse, na frente tem um supermercado gigante, com um estacionamento maior ainda! Perfeito.
Era a primeira vez, então eu fui relativamente cedo para a estação chamada Saint-Sébastien Frêne Rond. Comprei as passagens de ida e volta e fui olhar o horário do próximo trem: 15h38. Eram 14h30. Mais de uma hora! E tinha passado um trem às 14h15. Que azar o meu! Além disso, estava um dia horrível, um vento de carregar (na previsão tinha dito que o vento chegaria a 100Km por hora na nossa região). Decidi ir até o mercado começar a função de Papai Noel em vez de ficar esperando na estação correndo o risco de acabar indo voando mesmo carregada pelo vento...
Voltei a tempo de pegar o trem para ir ao centro. Ele chegou 15h38 em ponto! Impressionante!
Pra voltar eu tinha visto o horário de 17h04, que eu considerei muito cedo, já que a visita ao museu começava às 16h00. Eu não teria tempo de terminar a visita, ir a pé até o ponto do tram, esperar o tram, chegar na Gare, procurar o local de embarque e embarcar no trem exatamente às 17h04. Como eu tinha visto na ida, a pontualidade do trem era seguida à risca mesmo. O problema era o horário pra pegar as crianças, mas eu tinha pedido pra uma amiga levar o Felipe pra casa dela depois da escola e tinha avisado a babá que poderia chegar atrasada, então eu poderia pegar um trem mais tarde pra voltar. E tinha um às 17h30. Perfeito!
Quando eu já estava no caminho de volta, lembrei que o Vidal tinha me pedido pra tirar dinheiro e resolvi fazer isso antes de pegar as crianças, eu tinha tempo, ainda nem eram 17h00...
Peguei a Linha 1 do tram no Commerce (bem no centro) e fui até a Gare pensando em como a Europa é civilizada, tudo funciona tão bem, tão tranqüilo... E a Gare nem é tão longe assim do Commerce, são só três pontos, mas eu tinha colocado uma bota com salto meio alto e já estava cansada. As passagens de transporte público aqui são um ticket que a gente carimba quando entra no primeiro ônibus, bonde, trem ou barco e que é válido por uma hora depois disso. A gente pode trocar de meio de transporte quantas vezes quiser nesse meio tempo. Não valia a pena gastar os meus pezinhos já cansados...
Cheguei na Gare e procurei a indicação da plataforma no painel luminoso das partidas e não vi nenhum trem para Vertou (é o nome da cidade onde fica o ponto final dele) às 17h30. Fui ao balcão de informações e peguei um papel com os horários. Nesse momento, meu sangue gelou nas veias: o trem de 17h30 só circula aos sábados e era uma quinta-feira!!! Durante a semana o horário era... olhei no meu relógio... 17h09! Exatamente naquele minuto!!! Eu tinha perdido o trem para ir pra casa. O próximo era só às 17h45.
Se alguém aí pensou em taxi pode esquecer: custa uma fortuna, são praticamente inexistentes e, como não têm asas nem hélices, ficam presos nos engarrafamentos como todos os outros carros mortais.
Saí correndo da Gare pensando: o que eu vou fazer agora? Já sei! Pego a Linha 1 do tram, desço na estação Duchesse Anne, e daí pego o ônibus 27 que pára perto da estação Saint-Sébastien Frêne Rond onde eu tinha deixado o carro. Já estava a caminho quando me toquei de que o ônibus TAMBÉM ficaria preso no mesmo engarrafamento que eu queria evitar quando deixei o carro a kilômetros de onde eu estava. Pelo menos 50 minutos pra chegar na estação, isso depois de pegar o ônibus que poderia demorar mais de 20 minutos pra chegar.
Mudei de idéia.
Peguei a Linha 1 do tram novamente da Gare para o Commerce. Lá eu pegaria a Linha 2 do tram e, chegando no Pirmil (a estação perto da minha casa cujo estacionamento é sempre lotado), eu pegaria a linha 43 do ônibus que também parava pros lados da estação Saint-Sébastien Frêne Rond. Não parava tão perto como o 27 e eu ia ter de andar um trecho, mas tudo bem.
Cheguei no ponto da Linha 1 em frente à Gare e tinha um tram. Tentei abrir a porta, mas ele já estava de partida. Tudo bem, olhei no painel luminoso que indica o horário do próximo e vi que chegava em dois minutos. Ele chegou e eu fui. Desci no Commerce e corri até o ponto da Linha 2. Uma galera inimaginável estava no ponto. Olhei o painel luminoso: dois trens da Linha 2 estavam previstos para chegar em 2 minutos. Chegou o primeiro e a multidão se precipitou para a porta. Só tive a chance de ficar já na frente pra poder pegar o próximo. Entrar naquele, nem pensar! Dentro do tram estava muito, mas muito pior do que uma lata de sardinhas.
Enquanto eu esperava chegar o outro tram olhei no relógio: 17h30. Seriam uns 20 minutos pra chegar no Pirmil, mais uns 20 minutos de ônibus, mais o trecho a pé, mais o tempo que eu teria de esperar pela chegada do ônibus. Pensei que o melhor mesmo era ter ficado na Gare e esperado pelo trem de 17h45, porque o caminho da Gare até a Saint-Sébastien Frêne Rond era feito em 9 minutos.
Voltei para o ponto do tram Linha 1. O próximo chegava em três minutos. Esperei andando de um lado para o outro, embora meus pés já estivessem em frangalhos. Se eu tivesse dinheiro pra comprar outra, jogava essa bota no lixo porque ela sempre me machuca quando eu ando muito e ainda por cima tem uma sola tão fininha que me deixa os pés gelados se por acaso for um dia de muito frio. Sem contar que entra água se estiver chovendo. Se eu não fosse tão educada, ia colocar um S no meio da palavra bota pra descrever essa infeliz!
O tram chegou. E eu fiquei do lado de fora! Fui pra primeira porta: lotado! Corri pra segunda, lotado!! Tentei a terceira, o povo que se apertava lá dentro olhou pra mim com uma cara de "pode esquecer!". Eu murmurei uns palavrões sei lá em que língua e olhei pro relógio: 17h35. Próximo tram em 8 minutos. Sem chance! O trem sairia da Gare em 10 minutos. Em pontíssimo!
Já era quase noite e eu saí em desabalada carreira na direção da Gare. Correndo mesmo. Morrendo de medo de me esborrachar no chão porque não estou muito em forma pra correr, muito menos de bota, de salto, com os pés machucados, num dia de ventania! Eu corria, olhava no relógio, desviava das pedras, procurava lugares sem paralelepípedos, diminuía a corrida pra andar rápido, olhava no relógio, voltava a correr, tentava respirar fundo pra evitar a dor de barriga, o que fazia doerem os pulmões por causa do ar gelado, aí eu parava novamente de correr, olhava no relógio, corria de novo, pensava "por que eu fui parar a academia?", voltava a andar, respirava fundo, soltava o cachecol do tamanho de uma colcha de casal que eu tinha enrolado no pescoço, tentava não pensar nos meus pés que nem doíam mais: latejavam! Foi quando começou o calor... Uma coisa engraçada, calor embaixo da jaqueta impermeável e o vento gelado na cara. Uma mistura muito esquisita.
No meio do caminho tive de parar pra esperar o sinal fechar já que ainda não consigo saltar por cima dos carros e dei uma olhada de novo nos horários de trem. Descobri que depois de 17h45, tinha um trem às 17h55, o que me acalmou um pouco. Abriu o sinal, eu disparei novamente. As pessoas que andavam tranqüilas na minha frente olhavam pra trás desconfiadas quando ouviam o toc, toc, toc, toc, da minha corrida ou a minha respiração resfolegante, sei lá. Eu nem ligava pra elas.
Enfim entrei na estação e olhei no relógio: 17h45. Tinha perdido esse também. Procurei a plataforma para o trem das 17h55. Plataforma 6. Por que nunca é perto de onde a gente está? Não podia ser 1 ou 2, tinha de ser a 6, bem longe! Lá fui eu de novo. Correndo.
Cheguei na plataforma. Tinha um trem parado e lotado. Achei que era o trem das 17h45 que ainda não tinha saído. Tentei entrar, mas sem a menor chance. Tinha neguinho saindo pelo ladrão e muita gente pro lado de fora, inclusive uma mulher que reclamava um monte. E o trem não saía. Nem sei em qual minuto caiu a ficha: aquele não era o trem das 17h45 que ainda não tinha saído, mas sim o das 17h55 que ainda ia sair! Confirmei minhas suspeitas com um controlador. Se eu perdesse aquele também, só teria outro às 18h22! E eu tinha dito pra babá e pra mãe do amiguinho do Felipe que em torno de 17h45 eu estaria lá para pegá-los! Falei pra mim mesma: "Eu vou nesse trem de qualquer jeito! Nem que a vaca tussa!" Era o terceiro trem lotado que eu pegava pela frente em 15 minutos! Quer dizer, era o terceiro que eu NÃO pegava! Nada disso! Eu, a mulher reclamona, mais um senhor simplesmente empurramos a galera pro fundo e entramos. O povo lá dentro começou a reclamar e a dizer "Vamo pará de empurrá aí, ô", ou qualquer coisa parecida, mas eu nem olhei pra dentro pra ver de onde vinha o protesto. Teve um momento em que o medo me invadiu: o maquinista tentou fechar a porta e não deu. Ela travou na mochila de um rapaz que quis também aproveitar a operação "um passinho à frente faiz favô" e se enfiou no vácuo. Qual vácuo não sei, já que não tinha espaço nenhum naquele trem e até o vácuo ocupa espaço. O vácuo que esperasse o próximo trem! Comecei a entrar em pânico. Eu tinha certeza de que o controlador ia nos tirar nem que fosse à tapa dali. Mas ia ter de ser muito tapa mesmo pra me fazer sair...
Enfim, todo mundo respirou fundo, encolheu a barriga, a porta fechou e o trem partiu.
Nessa hora, eu comecei a suar em bicas. Eu sentia o rosto vermelho, queimando, o suor escorrendo como se estivesse um dia de verão de 40 graus à sombra. Um calor insuportável, porque dentro de qualquer meio de transporte aqui tem aquecimento. Considerando que eu já estava bem aquecida pela blusa, jaqueta, cachecol, levando em conta o imenso calor humano que tinha dentro daquele trem entupido de gente e ainda lembrando do fato de que eu estava super aquecida pela corrida pra chegar ao trem, vocês podem imaginar a situação. Eu só não tinha medo de me estatelar desmaiada porque eu nunca chegaria nem perto do chão de tanta gente espremida. Eu estava grudada na porta, e nela tinha uma janela, que era de vidro, que começou a ficar embaçada. Eu mexi os olhos (que era a única coisa que dava pra mexer mesmo) pra ver se tinha mais janela embaçada, mas não. Era só eu mesmo que estava ali derretendo. Uma hora teve uma menina que falou pras amigas "Gente! Vamo pará de respirá aí! O vidro ta todo embaçado!". Eu fiz de conta que não era comigo... Me arrependi na mesma hora de não ter persisitido no regime. Se eu tivesse perdido uns 10Kg ia ter mais espaço sobrando à minha volta naquele trem...
Pra piorar, comecei a sentir um cheiro horrível, uma mistura de cocô com chulé, que eu descobri, horrorizada, que vinha de mim mesma! O problema é que a minha jaqueta é forrada de pena de ganso, ou qualquer bicho desses. Como eu suava muito, as penas começaram a exalar um odor... não gosto nem de me lembrar. Eu devia ter desconfiado do preço baixo que paguei por ela... Eu me sentia suja, colando por tudo e, ainda por cima, perfumosa daquele jeito!!! Acho que eu joguei pedra na cruz, não é possível!
Enfim, cheguei. No momento que eu desci do trem me dei conta do quanto meus pés doíam. Mas eu tinha chegado, isso era o mais importante...
Fui buscar a Ana Luíza, depois o Felipe, e ainda, o Vidal, o que significa fazer de volta o mesmo caminho, só que agora, de carro. Com aquela jaqueta fedida. Ninguém merece! Passei novamente ao lado da Gare e pelos lugares onde uma hora antes eu estava correndo feito uma maluca. O objetivo era mostrar para o Felipe a decoração de Natal da cidade, mas antes mesmo de eu chegar perto da primeira luzinha ele já estava dormindo...
Pelo menos o dia estava chegando ao fim!
Ah! E tudo isso aconteceu porque eu tinha um compromisso no museu às 16h00, lembram? Acontece que eu fui ao museu errado! Daí me perdi e, quando eu consegui achar o museu certo já eram 16h30. Eu nem tentei encontrar o grupo. Perdi o grupo, a exposição e o meu tempo. Quer dizer, tudo isso por nada!
Como eu disse no começo, realmente tem dias em que a gente não devia sair da cama! O problema é que não tem ninguém pra nos avisar!
Antes de terminar, uma coisinha:
- Ainda não tivemos a resposta oficial do artigo do Vidal, mas as esperanças são muito grandes. Eu aviso, é claro!
sexta-feira, novembro 25, 2005
Por aqui ainda tem! Apesar de não parecer...
Depois de bastante tempo, algumas notícias rápidas!
Dia 15 de outubro, infelizmente, não foi dia de brigadeiro aqui em casa! A resposta que esperávamos não veio, daí eles adiaram pra 24 de outubro, e no dia 26 escreveram dizendo que o artigo tinha sido recusado. Descobrimos que doutorado, como o futebol, também é uma caixinha de surpresa, um dia a gente ganha, no outro a gente perde... Fazer o que, né?
Agora esperamos uma outra reposta para... HOJE! Será que vai ter brigadeiro aqui em casa?
Gostaria de agradecer aos meus comentadores de plantão pela assiduidade a esse blog! Vocês são mais assíduos do que eu!!! Saibam que ficamos MUITO contentes com a presença de vocês...
Também queria agradecer aos e-mails, cartões, telefonemas e presentes que recebi no meu aniversário. Quem não mandou nada, agradeço os bons pensamentos que tiveram no dia. A quem não teve nem bom pensamento porque esqueceu mesmo, ou nem sabia, agradeço os bons pensamentos que estão tendo agora!
Falando no meu aniversário...
Desde muito tempo eu tenho um desejo: sentar numa mesinha de café aqui na França e tomar um café lendo um livro. Isso é uma coisa que eu sempre quis fazer, só que nunca achava um dia. Como era meu aniversário, resolvi me dar esse presente. Era terça-feira e eu estava sozinha (Felipe na escola, Ana Luíza na babá e Vidal viajando...). Fui pro centro de Nantes com um livro na bolsa, decidida a tomar o tão famoso café!
O dia estava horrível. Claro. Não é que eu seja pessimista, muito pelo contrário. Mas há vários anos eu venho comprovando essa teoria quase científica já: no dia 18 de outubro, seja qual for o lugar em que eu esteja no mundo, vai chover! Não sei porque a chuva me persegue, mas sempre que tem uma data especial pra mim, chove. A roupa da minha sogra toda respingada de água nas fotos do dia do meu casamento comprova o verdadeiro dilúvio que caiu naquele dia. O detalhe é que em seguida foram dois meses de seca! No aniversário de um ano do Felipe, idem. Aniversário de um ano da Ana Luíza, no ano passado, a mesma coisa. Apesar de ser 26 de dezembro fazia um frio inacreditável para pleno verão. E tinha chovido a cântaros nos dias anteriores. Por isso, se alguém aí estiver com problemas de seca, é só me chamar pra comemorar alguma data importante. A nuvem me acompanha, pode deixar!
Naquele dia não estava chovendo de verdade. Mas estava nublado, frio, um horror. Eu não me deixei abater. Fui até a praça do Commerce, a mais central de Nantes, e escolhi o café. Me decidi por um cujas mesinhas tinham enormes guarda-sóis em cima. Afinal, era meu aniversário e embora não estivesse chovendo, não quis arriscar. E eram guarda-sóis enormes. Mesmo que caíssem algumas gotas, não ia estragar minha comemoração particular.
Tinha só mais duas mesas ocupadas. Nem mesmo os franceses se animaram a lagartear preguiçosamente num café no centro da cidade num dia daqueles...
O garçom chegou e pedi um café com leite. Peguei meu livro e me preparei para realizar um sonho antigo. Logo o garçom trouxe o café, eu paguei e comecei a ler... Nesse momento, começou a chover. Eu nem me espantei, afinal, era meu aniversário, né? Pode faltar tudo: cartão, telefonema, presente, bolo, brigadeiro, mas chuva, jamais! Nem liguei pra ela. Como estava abrigada pelo guarda-solzão, que naquele dia estava servindo de guarda-chuvão, continuei saboreando meu café e meu livro. A chuva aumentou e eu pensei: "Que bom. Faz meses que está uma seca danada por aqui, racionamento de água e tudo o mais. Estava precisando mesmo de uma chuvinha." Aliás, eu até devia ter ligado para o serviço de meteorologia para deixá-los descansados. "Dia 18 de outubro está chegando, gente, e eu estou na França, a chuva já vem..."
Continuei lendo. E a chuva aumentando. As mesas vizinhas ficaram vazias, fiquei só eu no café. E a chuva aumentando. Eu encolhi as pernas. E a chuva aumentando. Apesar de estar embaixo do guarda-sol, tive de vestir o capuz da jaqueta impermeável que eu estava usando porque a água respingava nas cadeiras e, pior, na mesa em que eu estava. E a chuva aumentando. Respingou tanto em cima da mesa que começou a escorrer para o lado que eu estava (mesa na calçada, chão irregular, tampo inclinado pro meu lado...). Eu segurava o livro com uma mão e, com a outra, o capuz da jaqueta que insistia em voar com o vento que fazia (sim! Chuva de vento!). Com o joelho eu erguia o tampo da mesa pra água não escorrer em cima de mim, apesar de eu já estar com a barra da calça encharcada de tanto que chovia. Não dava pra enxergar nada! Desisti do livro e fiquei empurrando as cadeiras vizinhas pra evitar os respingos de água, enquanto mantinha a mesa erguida com o joelho. Não tinha uma única viva alma na praça! Só eu naquela situação ridícula. E não podia nem sair dali porque, mal ou bem, tinha aquele guarda-sol que protegia um pouco do dilúvio.
Enfim, a tempestade foi diminuindo, diminuindo. Durou uns 15 minutos. Exatamente o tempo que eu reservei pra tomar um café, tranqüilamente sentada numa mesinha na calçada...
Ingenuidade minha né? Quem mandou fazer isso num 18 de outubro?
Podem ficar sossegados que ainda tenho um tempo por aqui pra realizar esse sonho. Só não vou escolher de novo, o dia do meu aniversário!
Até a próxima!
sexta-feira, setembro 30, 2005
Hoje foi o dia do resultado da submissão do artigo do Vidal e a resposta foi...
ACEITO!!!!!!!!!!
Vocês não podem imaginar o nosso alívio e alegria! Sabemos que foram muitas as orações e os pensamentos positivos que vieram daí. Aliás, acho que o "povo lá de cima" ouviu tanto que chegou a um ponto do "Tá bom! Tá bom! A gente já entendeu! Vamos antender de uma vez esse galera. E depois, o menino trabalha bastante... ele merece!".
O nome do congresso no qual o trabalho do Vidal foi aceito é "Journées Francophones sur la Cohérence des Données en Univers Réparti". Tudo bem, ninguém entendeu nada, eu sei. Não vou nem perder tempo tentando traduzir porque nem em português faria muito sentido mesmo... O importante é a sigla do evento. A partir do nome eles decidiram que a sigla seria CDUR. O que isso tem a ver? Vocês já vão entender...
Em francês, CDUR se pronuncia como "c'est dur" que quer dizer "é duro!". Desde que o Vidal começou a escrever esse artigo ele já disse: "c'est dur!". Na verdade, não é duro. É duríssimo! E eles fizeram jus ao nome até o fim! A data de anúncio do resultado era 15 de setembro. Chegou o dia 15 e nós estávamos tão tranqüilos quanto fios de alta tensão desencapados e caídos numa poça d'água. Desde cedo, de tempos em tempos o Vidal verificava a caixa postal pra ver se tinha chegado a resposta. Assim... a cada 15 segundos mais ou menos. Passou o dia e nada!
Na manhã seguinte ele mandou uma mensagem perguntando se tinha acontecido algum problema e ficou sabendo que a data de resposta tinha sido alterada para 30 de setembro. Só que eles não tinham tido tempo de atualizar o site. A vontade que eu tive foi de perguntar se pelo menos eles teriam tempo de arranjar uma camisa de força pra mim e pro Vidal porque a gente ficou num estado...
Enfim, os dias se arrastaram até hoje. Tínhamos várias coisas administrativas pra fazer logo cedo, e, depois da burocracia, podia vir a alegria ou a agonia, da resposta, tudo dependia... (vejam como estou poética hoje! Daqui a pouco vai sair até batatinha quando nasce!). Fui levar o Vidal na Universidade e, claro, fomos juntos até a sala dele pra ver se tinha chegado a resposta. Normalmente, nesses congressos as respostas chegam cedo, afinal, é só enviar as mensagens com as avaliações que foram feitas nos dias anteriores. Mas não pra esse congresso, afinal, c'est dur, né? Nada de resposta! Realmente, é pra testar a resistência dos dentes de cada um, afinal, a gente passa o dia roendo tudo o que vê pela frente, das unhas da mão aos pés da mesa.
O sufoco só acabou em torno das quatro da tarde, com a resposta da aceitação!
Eu tinha dito que esse último ano seria o da colheita, não tinha? Eu realmente acredito que o resultado de muita dedicação e de muito empenho, como é o caso do Vidal, até pode não ser a glória suprema, mas não tem como não ser o sucesso, na forma do atingimento dos objetivos. Tinha de ser assim!
A noite foi de comemoração! Pedimos uma pizza e eu fiz uma pratada de brigadeiro que foi devidamente partilhada por quatro colheres gulosas no sofá da sala! É ou não é uma grande comemoração?!
Mais uma vez, muito obrigada pelas orações, pelo apoio, pelo incentivo que todos vocês nos têm dado. Isso é muito importante pra nós e nos faz seguir adiante mais facilmente.
Ah! E dia 15 de outubro tem outro. Haja coração! Só espero que no dia 15 a gente possa ter brigadeiro de novo aqui em casa!
terça-feira, setembro 13, 2005
O primeiro ano foi o das descobertas, o segundo, o das rotinas. Só que rotina aqui não tem nada do sentido ruim que muita gente dá pra palavra, ao contrário. Estabelecemos uma rotina pra cada um de nós, e passamos a viver mais tranqüilos, embora com menos tempo. Parece estranho isso, né? Mas a verdade é que justamente o fato de ter uma rotina estabelecida, não nos deixa espaços vagos no tempo e, com isso, nos sentimos seguros.
Rotina e segurança são as palavras que definem essa segunda parte da nossa vida fora de casa...
Depois dos altos e baixos do primeiro ano, atingimos a calmaria, o que não quer dizer, necessariamente, menos sofrimento. O ano que passou foi complicado, especialmente no que diz respeito ao trabalho do Vidal. Passamos por momentos realmente muito difíceis quando chegamos de volta do Brasil. Momentos que eu não gosto nem de lembrar, coisas que nos fizeram duvidar de que conseguiríamos levar tudo isso até o fim.
Falávamos tanto no assunto aqui em casa que um dia o Felipe chegou pra gente e perguntou : "O que é peer-to-peer?" (é um dos assuntos da tese do Vidal). Foi aí que percebemos o quanto esse tema era presente nas nossas conversas.
Não quero descrever em detalhes o que aconteceu nesse período! Isso vai ser assunto para uma mesa de churrasco ou uma roda de chimarrão, principalmente porque já passou. Felizmente. Claro que ainda faltam as aceitações das publicações do Vidal. Sem isso não vai dar pra sentir que realmente tudo vai super bem. Mas temos a esperança (sempre ela!) de que tudo vai entrar nos eixos, já que o Vidal trabalhou MUITO nesse segundo ano. E quando eu digo muito, quero dizer muito MESMO. Perdi a conta de quantas madrugadas e finais de semana em seqüência ele trabalhou. E sei que todo esse trabalho vai ser recompensado... Depois de amanhã temos mais uma resposta de congresso. Se o trabalho for aceito, vamos ter a confirmação de que todo o retorno está chegando.
Se for pra fazer uma comparação, podemos dizer que o primeiro ano foi pra arar a terra, o segundo ano foi para plantar, e o terceiro, esperamos, vai ser para colher! O otimismo e a esperança não nos abandonam jamais!
Agora o nosso espírito começa já a se preparar para a volta. A verdade é que desde o dia em que chegamos começamos a falar da partida, a prever e a planejar como faremos. Esse planejamento (às vezes excessivo, é bom reconhecer) faz parte de nós, não tem jeito. Mas o que vocês esperavam de duas pessoas da área de Informática? Chega a ser irritante de tão planejadinho! É por isso que eu estudo Letras: pra ver se coloco um pouco de desordem nos nossos planejamentos (porque na casa não precisa, a Ana Luíza se encarrega sozinha da tarefa! É um verdadeiro furacão!).
Só que, ao falar da partida, já prevemos um outro problema que é, exatamente, a partida. Vai ser muito duro deixar pra trás as pessoas que conhecemos. Quando saímos daí, foi difícil, foi doído. Mas sabíamos que íamos voltar. Agora, vamos deixar uma parte de nós por aqui, mas sabendo que a volta... talvez não aconteça. Esperamos que haja uma invasão francesa no Brasil, tantas foram as pessoas que convidamos pra nos visitar. Mas mesmo que as visitas aconteçam de ambos os lados, sabemos que não é como viver na mesma cidade.
Quando decidimos vir, esse não foi um detalhe que planejamos: a separação. E ela é dura. Faz parte da vida, sabemos disso. Mas nem por isso, ela é menos doída.
Ei! Sem ciúmes por aí, hein? Aqui temos todos coração de mãe: cabe ainda muito mais gente!!!
Agora temos diante de nós um terceiro, e último, ano. Na verdade, nem é um ano... São só 10 meses. E sabemos que eles vão voar. Em pouco tempo estaremos de volta pra recomeçar de onde paramos. Diferentes, mudados (pra melhor, eu imagino) e, certamente, crescidos. E com muitas histórias pra contar!
Que venha o último ano!
terça-feira, agosto 23, 2005
Tem alguém aí ainda?! Deu pra notar que estive de férias?
Meus pais e minha irmã estiveram por aqui em agosto e eu fiquei a léguas de distância desse micro... Agora que foi todo mundo embora, vou voltar à minha vidinha... Semana que vem recomeçam as aulas e tudo volta ao normal.
O Felipe vai começar a primeira série!!! Nem dá pra acreditar. Não sei o que está deixando ele mais ansioso: a volta da escola, a visita da Carolina e do Rony na semana que vem, o aniversário dele no dia 5, ou o jogo do Teen Titans que sai em outubro! No fim das contas, acho que é o jogo mesmo... Oh, vida!
Durante as férias, passeamos um pouquinho. Fomos à Bélgica e à Holanda. Na ida e na volta, aproveitamos pra conhecer mais alguns lugares pela França. Passamos novamente pelo Mont-Saint-Michel e, dessa vez, vimos a subida da maré. É uma coisa impressionante mesmo. No resto do tempo em que meus pais estiveram por aqui, aproveitamos pra fazer pique-niques aqui por perto. Eu, eles e as crianças (a Renata já tinha ido embora e o Vidal não teve férias! Só uma semaninha, mas levando o notebook junto...). Conhecemos cidades vizinhas, visitamos produtores de vinho, tentamos uma praia... Só que aqui, praia, nem pensar! A água é gelada DEMAIS! Mesmo quando faz um calor imenso, a temperatura da água não passa muito de 19 ou 20 graus! Eu não molho nem o dedão do pé. Já o Felipe e a Ana Luíza adoram!
O Vidal anda, como sempre, trabalhando MUITO. Tem um artigo pra entregar no dia 3 de setembro e esperamos uma resposta de conferência para o dia 15 de setembro. São esses malditos artigos que nos fazem sofrer no momento. Enquanto ele não começar a ter os trabalhos publicados não dá pra sentir que a coisa está bem de verdade! Também não podemos começar a preparar a volta, a pensar no retorno... Na verdade, já começamos a voltar... aos pouquinhos... Por enquanto, só foram livros e algumas roupas de carona na bagagem dos meus pais. Todo mundo ficou de olho comprido no aeroporto, pensando se não dava pra gente também ir dentro daquelas malas...
Receber visitas é ótimo! Mas o momento do adeus... é de matar. O coração vai se esticando, querendo ir junto. É sempre tão doído! E o problema nem é esse. É que a cada vez que pensamos na hora de partir, nos damos conta de que agora vamos deixar muito de nós por aqui também. Conhecemos pessoas maravilhosas, fizemos amigos de verdade. Pra sempre vamos ter essa divisão: uma parte de nós vai ficar pra sempre ancorada em terras francesas...
Mas vamos deixar as coisas melancólicas pra lá! Vamos às boas notícias...
A Ana Luíza já falou a primeira palavra em francês: "ovoá" (au revoir. Acho que ela também já está se preparando pra partir...). Em português já sai muita coisa, mas o que ela mais fala mesmo, é o "analuizês". É MUITO engraçado. Ela fica parada na nossa frente e fala, fala, fala... Faz gestos, dá risada. Tem todo tipo de entonação: surpresa, segredo, divertimento, alegria, medo, raiva, sussurro. Tem horas em que ela dá bronca: dedinho em riste, ela diz "Tati tata, prrr slhpat! Gãghiiii plafff!" E junta as sobrancelhas no meio da testa, olhando bem nos olhos da gente. Dá pra entender direitinho! É uma pena que a gente não tenha como gravar essas "conversas" todas.
Em outros momentos é só carinho. Ela abraça e beija todos nós, além das bonecas, dos bichinhos. É uma graça.
O que ela mais gosta de fazer é o "vesgo". Ela começou com a história de ficar vesga de propósito e a gente achou engraçado. Agora ela faz toda hora! Já estou até desencorajando por medo de que ela acabe tendo algum problema.
Na semana que vem eu recomeço também no patchwork. Já estou sentindo muita falta da minha máquina de costura. Como esse é nosso último ano por aqui, quero aproveitar. Depois de voltarmos pro Brasil, volta a vidinha dura de professora e estudante e aí, acabou a moleza! Fiz uma página com fotos da minha "produção" 2004/2005, quem quiser dar uma olhada é só clicar no http://juliana.martins.free.fr/patchwork.htm. Olhando lá vocês vão entender porque eu tenho escrito pouco aqui nesse blog... Até eu me assustei quando coloquei tudo junto!
Também vou colocar mais fotos no Foto Blog. Agora mesmo!
Percebi que acabei apagando fotos que já tinha publicado. Foi sem querer. Um dia eu volto a colocá-las. Por enquanto, vou incluir só coisas novas!
Até a próxima!
quarta-feira, junho 29, 2005
Sábado passado eu fui ao mercado. Vocês devem estar se perguntando o que isso tem de especial. Mas depois dessa visita, pensei que tenho de contar umas coisas pra vocês.
Primeiro, vou contar o que aconteceu comigo em Castro quando estivemos no Brasil no fim do ano...
Eu tinha uns postais pra mandar aqui pra França. Também era um sábado e fui ao correio que fica do lado da casa da avó do Vidal. Vi um rapaz dentro da agência e empurrei a porta, mas ela não abriu. Daí vi uma plaquinha dizendo que o horário de atendimento aos sábados era até o meio dia. Olhei no relógio: 12h45. Realmente já fazia tempo que estava fechado. Já ia voltando pra casa, resignada, quando o rapaz abriu uma porta lateral e perguntou o que eu queria.
- Queria mandar uns postais, mas não tinha visto que estava fechado.
- Pode entrar aqui.
- Não! Não precisa! Eu mando depois, obrigada.
- Não tem problema, pode vir.
Entrei, entreguei os postais. Ele ainda se desculpou: "Só que eu só vou poder despachar na segunda-feira, tudo bem?". Eu disse que não tinha problema nenhum, paguei e saí.
Isso nunca, jamais, sob qualquer hipótese, de maneira alguma, aconteceria aqui na França! Aliás, muito pelo contrário, e é aí que entra a história do mercado...
Esse, especificamente, fechava às 19h00. Fechar às 19h00 significa dizer que nessa hora todo mundo (leia-se, os funcionários) quer estar na porta, de bolsinha na mão, pronto pra partir. Então, lá pelas seis começam os preparativos... Ainda bem que eu não gosto de peixe, porque nesse momento já não tem mais peixes pra comprar. Foi tudo recolhido. Frutas e verduras também já começam a desaparecer...
Seis e meia. Pelo alto-falante, nós ouvimos: "Estimados clientes, gostaríamos de informar que em meia hora nosso estabelecimento fecha suas portas. Agradecemos a visita."
Seis e quarenta. "Caros clientes, em vinte minutos encerramos nossas atividades. Queiram, por favor, procurar o caixa mais próximo. Obrigado".
Nessa hora começam a serem apagadas as luzes do fundo do mercado. Você já não acha ninguém pra pesar frutas e legumes.
Seis e quarenta e cinco. "Em quinze minutos, fechamos. Por favor, dirijam-se ao caixa". Mais luzes são apagadas.
Quem ainda está andando de cestinha ou empurrando carrinho pelo mercado, já quase totalmente no escuro, recebe a visita do segurança. "Senhor, estamos fechando". Você olha pro lado, depois pra cima. O cara é geralmente do tamanho de um armário. De imbuia. Não dá nem pra pensar em discutir ordens. Isso aconteceu com o Vidal...
Seis e cinqüenta. "Em dez minutos estamos picando a mula. Você aí com essa cebola na mão. É, você mesmo. Pode tirar suas patas daí e procurar um caixa! É isso aí. Vazando todo mundo!".
E isso não acontece só no mercado não!
Uma vez eu estava numa loja de móveis na periferia da cidade. De repente, todas as luzes se apagaram, a música que estava tocando acabou, sumiu todo mundo! Eu saí da loja, achei que tinha acontecido alguma catástrofe, um ataque aéreo, um atentado, sei lá. Daí vi que na porta tinha uma placa com o horário de funcionamento. A loja fechava para o almoço, do meio-dia dia às duas. Sem choro! Fiquei duas horas sentada do lado de fora esperando abrir! Chorando. De raiva!
Já me aconteceu um dia de estar num mercado vendo preços de máquinas fotográficas. Faltavam dez minutos pra fechar quando chegou um segurança do meu lado:
- Senhora, estamos fechando.
- Eu não vou comprar nada, só estou anotando os preços.
- Mas estamos fechando.
- Mas eu não vou comprar nada! Só estou olhando.
- Só que enquanto a senhora não sair daqui aquela moça ali do caixa não pode ir embora.
- E EU COM ISSO! ELA RECEBE PRA FICAR ATÉ ÀS NOVE, NÃO É? ENTÃO ELA QUE ESPERE!!!
Claro que eu não falei isso... Vocês me conhecem. Murmurei um "tudo bem" inconformado e saí. Mas que eu pensei, ah pensei!
Semana passada foi no correio. Eu estranhei aquela solicitude! Tinha três funcionários pra me atender. Cada um fazia uma coisa diferente, super rápido. Eficiência total. E eu que já estava me achando especial, quando virei pra trás e vi um quarto funcionário fechando as cortinas... Daí entendi tudo. Faltavam cinco minutos pra fechar o correio. "Igualzinho" ao colega brasileiro...
Eu sei, eu sei, eles é que estão certos, afinal, eles não são pagos pra fazer hora extra. Aqui nem seriam hoooooras extras, no máximo, minutos extras. Mas que dá uma saudade do Brasil nessas horas, isso dá...
sexta-feira, junho 17, 2005
SOCORRO!!!!!!
Desenterrem o Eistein! Alguém tem de conseguir explicar porque o tempo está passando mais rápido e a gente não consegue mais fazer o que fazia antes!!!
Eu achando que tinha escrito há uns 15 dias, descobri que já faz mais de um mês! Tanta coisa aconteceu nesse tempo...
Primeiro, recebemos a visita da Zélia (vejam fotos no Foto Blog, que aliás, também está jogado às traças digitais...). Foram dias maravilhosos! Ter gente da família por perto é uma coisa muito boa quando estamos tão longe. O difícil, mas difícil mesmo, é a hora da partida! De partir o coração... Mas nem por isso as visitas estão desencorajadas, viu? Aproveitem porque hotel gratuito na Europa, só por mais um ano! É, isso mesmo. Só mais um ano e estamos de volta...
Também tivemos duas notícias chatas...
Primeiro, o pedido de bolsa que o Vidal fez foi negado. A resposta veio semana passada... Nada de bolsa. Aliás, nem bolsa, nem sacola, nem mochila, nem malão, nem malinha, nem mesmo uma pochete! O Vidal disse que não esperava, mas eu, lá no fundo, tinha uma esperança. Mínima, minúscula, ínfima, raquítica, quase transparente, mas tinha... Tudo bem. Vamos sobreviver sem ela!
A segunda notícia é que um artigo que o Vidal submeteu a um congresso não foi aceito. Isso sim nos abalou. Para o que Vidal tenha o título de ‘dotô’ é preciso ter pelo menos uns três artigos aceitos em conferências. E o problema com esses artigos é que na maioria das vezes não é possível mandar o mesmo texto para duas ou mais conferências. Cada conferência quer um texto inédito. Então são meses escrevendo, daí o texto é enviado, aguarda-se mais uns meses pelo resultado. Isso significa que ficamos quatro, às vezes, cinco meses esperando por essa resposta. É um sofrimento... Principalmente quando a resposta é não.
A recusa faz parte. Com todo mundo é assim, a gente entende. O duro é quando acontece com a gente!!!
Agora estamos animadinhos com a possibilidade de mudar de apartamento. Apareceu um para alugar no mesmo prédio em que moramos (na verdade, no bloco vizinho) com DOIS quartos! Se der certo mesmo, vou me sentir no palácio de Versalhes! Mas, novamente, o vil metal pode atrapalhar nossos planos... Mudar custa caríssimo: taxa de imobiliária, mudança da antena da tv, os papéis de parede que vamos ter de trocar no apartamento em que estamos porque foram devidamente ‘decorados’ pelas crianças... Minhas esperanças nessa mudança estão no mesmo nível daquelas que tinha para a bolsa.
Eu vou dando notícias... Mais curtinhas, menos ‘literárias’, mas pelo menos não deixo vocês se esquecerem de nós...
Até a próxima!
quarta-feira, maio 11, 2005
Vocês podem estar achando que minha vida de Rainha do Lar anda menos importante, já que faz tempo que eu não tenho um ‘causo’ doméstico pra contar. Nada disso! A minha lida aqui com meus produtos de limpeza continua firme e forte! Limpo, lavo, passo, cozinho, junto brinquedos do chão pelo menos umas cinco vezes por dia... Claro que eu tenho uma ajuda de alguns eletrodomésticos. Aspirador de pó, máquina de lavar roupas... Aliás, falando nela...
Eu já contei por aqui que alguns dias depois que chegamos o que eu mais queria era escutar música. Não qualquer música, mas sim uma em particular: o batuque ritmado de uma máquina de lavar roupas... Eu chegava a sonhar à noite com isso.
Pois bem, nos mudamos e compramos uma máquina. Como eu fiquei feliz! Já o Vidal quase ficou descadeirado pra fazer subir a máquina até aqui em cima (ela foi, de longe, a coisa mais pesada que ele carregou). Mas eu não via a hora de instalar a bichinha. Eu arrumei o cantinho dela, nós retiramos sofregamente todas as proteções da embalagem (vejam como é a vida... tem casais que retiram sofregamente a roupa... a que ponto chegamos!), ligamos o fio na tomada e... percebemos que uma máquina de lavar roupas é um eletrodoméstico um pouco mais complicado. Precisa de energia elétrica, tudo bem, isso a gente sabia como fazer, mas também precisa de uma entrada de água e de um lugar pra escoamento! Puxa vida!
O lugar da máquina é ao lado do pianque (aquela mistura de pia de cozinha com tanque sobre a qual eu já falei aqui) e não tinha nada preparado na parede pra receber a minha maquinazinha. O Vidal teve a audácia de sugerir:
- Bem, o encanador vai vir daqui a quinze dias fazer a reforma no banheiro, daí a gente pede pra ele instalar a máquina.
Ao que eu, prontamente, respondi:
- NEM PENSAR! Não quero ficar mais quinze dias lavando roupa na mão. Não, senhor! Vamos ligar essa máquina hoje mesmo!
Sábia decisão. Não sei se vocês estão lembrados, mas o encanador, que era pra vir em quinze dias, só apareceu dois meses depois! Já pensou? Ficar dois meses sem máquina de lavar roupa?
Pra escoar a água era fácil: a gente colocou o cano pendurado no pianque e tudo bem. Mas pra fazer entrar água na máquina a gente ia ter de ligar o outro cano direto na torneira, o que não era possível sem uma pecinha especial. O Vidal olhou pra mim segurando o cano em uma mão e a torneira na outra, abriu a boca e... não falou nada. Desconfio que alguma coisa no meu olhar fez com que ele desistisse da idéia de argumentar e resolvesse sair imediatamente pra comprar a tal pecinha.
Mas, como tínhamos acabado de nos mudar, por mais que eu quisesse muito ver a máquina funcionando cheia de roupas dentro, havia coisas mais urgentes a serem feitas como, por exemplo, dar uma limpada no banheiro pra gente poder tomar banho, tirar o plástico do colchão pra gente ter onde despencar o esqueleto, empilhar as caixas pra gente poder passar de um lado para o outro da maneira menos perigosa possível. Então, quando conseguimos ligar a máquina, já era quase meia noite.
Enquanto o Vidal ia conectando as coisas, eu ia lendo o manual de instruções, como se fosse um romance, imaginando as cenas das roupas saindo limpinhas da máquina sem que eu tivesse esfregado uma por uma antes! Um verdadeiro sonho!
Muito bem! Tudo instalado e pronto para o primeiro teste! Lá no manual dizia: ‘Utilize o programa número 1 para roupas de algodão muito sujas’. Perfeito! Era exatamente esse o caso: meias do Felipe que um dia tinham sido brancas, camisetas com respingos de molho de tomate, calças jeans que há muito não viam uma água com sabão... Enchemos tudo, colocamos a danada pra funcionar e nos sentamos próximo à mesa da cozinha pra ficar ali, olhando pra ela, assistindo comovidos aos seus primeiros movimentos e ouvindo o suave e discreto som do seu trabalho: chec, chec. Chec, chec. Chec, chec. Chec, chec. Chec, chec....
Rorrrrrrrrrrrr! Esse foi o som do ronco do Vidal que me acordou. Estávamos os dois, ele roncando e eu babando na mesa da cozinha. A máquina? Trabalhando! Uma hora já tinha passado depois de termos colocado a danada pra funcionar e ela não estava nem na metade do programa ainda!
O programa número 1, significava, na verdade, fazer a máquina passar por todas as sete etapas de lavagem para tecidos de algodão. Nem sei que horas eram, mas já era muito tarde. Eu sugeri deixar a máquina trabalhando e irmos dormir deitados, nem que fosse sobre alguma caixa de papelão, mas o Vidal achou mais prudente desligar a máquina e terminar a lavagem no dia seguinte. Dessa vez, a sábia decisão foi dele...
No dia seguinte, a primeira coisa que eu fiz foi ligar a máquina e continuar a limpeza e a arrumação das outras coisas. E assim foi: ela trabalhando no canto dela e eu no meu. E ela trabalhava. E eu também. E ela trabalhava. E eu também. Até que eu cansei e ela... continuou trabalhando! Cheguei a pensar que ela estava engasgada em algum dos sete passos do programa, mas não! Lentamente, mas põe lentamente nisso, ela avançava. Até que chegou no último passo: a centrifugação.
Parênteses. Quando fomos comprar a máquina, a vendedora que nos atendeu disse que ela era ótima e que, vejam só, chegava a até mil rotações por minuto na parte de centrifugação! Eu nunca tinha visto isso na vida, já que aí no Brasil as máquinas que eu conhecia ou centrifugam ou não centrifugam e pronto. Mas diante da vendedora fiz uma cara de muito satisfeita, do tipo ‘Ah bom, se não fossem as 1000 centrifugações por minuto eu nem ia querer saber dessa máquina’, quando, na verdade, ela era A opção que tínhamos, já que, não por acaso, era a mais barata entre todas as lojas que tínhamos pesquisado.
Obviamente, quando fiz as regulagens de quantidade e temperatura da água, selecionei mil rotações por minuto na hora de centrifugar. Imaginei que a roupa sairia da máquina praticamente seca! Fecha parênteses.
A centrifugação começou e eu não estava ali por perto. Ninguém estava. Aí começou a vir um barulho estranho e eu fui ver o que era. A máquina tinha se movimentado para trás e estava batendo na parede da cozinha. Na verdade, ela estava pulando mesmo. Eu fui tentar puxá-la pra frente, mas lembrem-se de que eu disse que ela era o que de mais pesado tinha por aqui. Além do mais, eu estava com meu barrigão de sete meses que não ajudava grande coisa, muito pelo contrário.
Enfim, eu tentava puxar a máquina pra frente, e ela pulava feito uma cabrita pra trás. Desisti de puxar e resolvi só segurar pra ela não fazer um estrago grande, nem na parede, nem nela mesma. Segurei a máquina pela parte de cima e apoiei os cotovelos na tampa, enquanto fincava os pés no chão e empurrava a bunda pra trás, apertando os olhos, fazendo o máximo de força que eu era capaz pra ver se conseguia manter aquela coisa no lugar! O Felipe tinha vindo atrás de mim na cozinha e me olhava com os olhos do tamanho de dois pires! Senti que estava no fim das minhas forças e chamei:
- Vidal!
Nada.
- VIDAL!
Nada.
- VIDA-A-A-A-A-A-A-A-A-AL!!!!!
O Felipe começou a chorar.
O Vidal chegou correndo na cozinha e assumiu o posto de segurador da máquina até que ela parou. Que alívio!
Fomos investigar os estragos... Ela tinha feito um buraco na parede. Tudo bem. Não foi nada mais sério do que isso.
Percebemos que não ia dar pra usar as mil rotações por minuto. Então começamos a diminuir: 800. Não deu. 700. Nem pensar! 600. Pulos ainda. 500. Coices pra tudo que é lado. 400. Pinotes! Depois de 400, só tinha mais duas marcas nos controles: mínimo e sem centrifugação. Colocamos no mínimo. Finalmente, ela não saiu do lugar! O problema é que, no mínimo, a roupa sai pingando da máquina. Até eu, que tenho uma força que beira o ridículo, sou capaz de torcer melhor.
Desolação total! Com o clima horroroso que faz aqui, e sem secadora de roupa, não dava pra não centrifugar! Resolvemos ler o manual novamente.
Lá dizia: ‘Depois de colocar a máquina no local escolhido, nivelá-la ajustando os pés anteriores, firmando em seguida as porcas com a chave fornecida. Atenção: todo nivelamento imperfeito provoca instabilidade da máquina, um funcionamento barulhento e risco de panes e rupturas’.
Estava explicado. Não tínhamos regulado os pés da máquina. Toca o Vidal pro mercado de novo pra comprar um nível daqueles de pedreiro e marceneiro. Vocês sabem que quando é pra fazer alguma coisa, a gente faz bem feito.
Mesmo com todo o aparato técnico, foi meio difícil ajeitar o nível porque era necessário levantar a máquina (leve como um hipopótamo), ajustar os pés, abaixar a máquina, olhar o nível, e assim sucessivamente até a gente perceber que era impossível! Na verdade, foi o Vidal quem concluiu brilhantemente que não dava pra colocar no nível uma coisa de quatro pés se ele só podia mexer nos dois pés da frente (os de trás eram rodinhas, não dava pra mudar a altura).
Aí o Vidal teve uma outra idéia. Foi novamente ao mercado e voltou com um serrote e um formão! Isso mesmo! Um formão, aquele instrumento que serve pra esculpir madeira.
Ele pegou uma ripa que tinha sobrado nem sei de qual embalagem e cortou um retângulo um pouco maior do que o espaço da rodinha da máquina. Então, entalhou um buraco do tamanho exato da rodinha. Horas e alguns cortes na mão depois, ele encaixou esse pedaço de madeira na rodinha traseira e aí, com o nível, foi ajustando a altura da máquina, serrando, entalhando, lixando até que a máquina ficou perfeitamente nivelada. A peça de madeira esculpida ficou de dar inveja ao Michelangelo!
Nova experiência de lavagem de roupas. O Vidal ansioso, me perguntou:
- E daí?
- Silêncio absoluto na cozinha!
Todas as vezes em que eu colocava a roupa pra lavar, ficava do lado da máquina esperando pra segurá-la na hora da centrifugação. Quando o Vidal estava em casa, ele mesmo segurava a cabrita. O Felipe, invariavelmente, ia se esconder no quarto chorando embaixo da cama.
Começamos a falar pra ele que isso era bobagem, que não tinha problema, que era até divertido encostar na máquina e falar enquanto ela trabalhava e, aos pouquinhos, ele foi perdendo o medo e passou até a, corajosamente, nos ajudar a segurar a louca.
Daí ficamos assim: eu punha a roupa pra lavar e deixava a centrifugação no mínimo. Depois que ela terminava o serviço, eu colocava de novo pra centrifugar e ficava por perto. Quando ela começava a dar pinote eu montava na bichinha e gritava: ‘Seguuuuuuuuuuuuuura peão! Quem-tem-amor-tem-saudade-quem-não-tem-chora-uma-barbaridade!’ Barretos que me aguarde!
Claro que a gente deixava em 400 rotações por minuto, porque nas mil rotações não dá pra suportar. Ela chacoalha tanto que a gente tem a sensação de que o cérebro está chacoalhando também! Mesmo assim, quase no mínimo, na época em que eu amamentava a Ana Luíza tive a impressão de que uma vez ou outra ela não conseguiu mamar direito. Acho que meu leite acabou virando manteiga. Sei não!
Com o tempo eu fui ficando mais confiante. Ou preguiçosa, depende do ponto de vista! Primeiro eu parei de segurar. Passei a colocar só o pé na frente, enquanto aproveitava o tempo pra lavar a louça, por exemplo. Depois, comecei a deixar que ela pule e vá aonde bem entenda. Ela é limitada pelo fio da energia elétrica mesmo, então seus passeios não vão muito longe. Às vezes ela vai pra frente até parar no cesto de roupa suja, que empurra o cesto de lixo que gruda no armário que já está encostado na parede mesmo e não se mexe. Outras vezes ela vai pra direita ou pra esquerda e fica batendo na parede ou no pianque até que eu chegue pra puxá-la de novo pro lugar (isso quando eu não coloco um pote de amaciante ou a caixa de sabão em pó pra amortecer as batidas e deixo que ela fique sacolejando à vontade). Algumas vezes, milagre!, ela não se mexe! E não sei qual é a lei da física que explica isso mas, quando ela está em 400 ou 500 rotações por minuto, ela anda pra frente. Se a gente coloca 800 ou 1000 rotações por minuto, ela anda pra trás! Então, de vez em quando aproveito isso pra fazer o seguinte: ela vai pra frente, eu limpo o chão atrás dela, daí eu mudo a rotação e ela volta pra trás. Sozinha!!! Vejam que prático!
Claro que hoje ela não está mais na base da ‘ligação direta’! Não ia dar. Sabem o programa número 1? Demora três horas e meia pra completar! Quando a máquina estava ligada direto na torneira, a gente ficava esse tempo todo sem poder tomar água, cozinhar, lavar a louça. Sem falar no escoamento da água da lavagem direto na pia... Um horror! Não! Quando o encanador esteve por aqui tirando a banheira e colocando o box, ele fez também as instalações para a máquina. Ufa!
De qualquer maneira, mesmo pulando, tropicando ou estrebuchando, eu não viveria sem minha máquina de lavar roupas! Tudo bem que ela lava, mas não passa. Aliás, agora mesmo vou ter de parar de escrever porque, como eu disse um dia desses numa conversa, a pilha de roupas que eu tenho pra passar só não está mais alta do que as Twin Towers porque elas não existem mais! Oh vida!
