domingo, maio 09, 2004

Gente, antes que eu me esqueça: eu ODEIO o clima desta terra! Tem um monte de coisas legais aqui, é verdade, mas o tempo... A temperatura hoje na hora do almoço era de CINCO graus! Isso porque estamos chegando quase no verão! Tem lugares aqui na França em que NEVOU! Eles dizem na televisão que não é normal para a estação esse frio, que está parecendo fim de fevereiro e não meio de maio, etc., etc., etc. Eles devem estar é querendo nos consolar somente. Se a gente não tivesse passado uns dias de calor aqui no ano passado quando chegamos, eu ia duvidar que um dia o verão vai chegar mesmo.

Desabafo feito, quero dar notícias da Ana Luíza. Semana passada fomos ao médico para a consulta normal dos quatro meses, vacinas e tudo o mais. Ela está super bem: 5,780Kg e 61,5cm. Crescendo e se desenvolvendo da melhor maneira possível. Claro que ela chorou muito na hora das vacinas, o que é compreensível. O Felipe ficou chocado! Sentimos que ele realmente sofreu com o sofrimento dela. Mas, a vida é assim mesmo e as vacinas são necessárias, não é? Aí vai uma foto:

[essa foto foi retirada por mim]


No mais, estamos todos bem. Esta semana começamos a fazer academia, o Vidal e eu. Estava na hora de acabar com aquela história de "estamos fragilizados, por isso estamos nos afogando nos chocolates, e essa barriga caindo sobre o cós da calça é só coisa da nossa imaginação..." e por aí vai. Nada disso! Desde o início dessa semana jantamos salada e vamos à academia! Sexta-feira de manhã o Vidal não conseguia levantar os braços e eu, as pernas. Cheguei a sugerir que a gente fizesse uma mistura de nós dois, mas o Vidal, sabiamente, concluiu que daí teríamos uma pessoa completamente inválida e uma boa no lugar de dois semi-inválidos. Ele tem razão! Daqui a um mês eu volto a falar para contar os resultados!

Olha, desculpe voltar nesse assunto, mas não dá para falar só de castelos e lendas. Essa parte da nossa vida aqui é muito legal, mas só acontece de vez em quando. Nosso dia-a-dia é bem menos chique: sou eu com as minhas panelas e panos de chão e o Vidal com seus livros e artigos. Então, lá vai: ressurgiram esperanças de eu conseguir acabar com as manchas no chão da sala! Vocês sabem, eu já tinha me resignado a elas. O apartamento é de 1970, eu sou de 1969. Portanto, temos quase a mesma idade. Se eu mesma já tenho algumas manchas que não consigo tirar, porque o pobre do apartamento também não poderia ter? Mas, um fato fez renascer a possibilidade de eu acabar com elas.

O que aconteceu foi o seguinte: na terça-feira passada, dia do faxinão, eu fui tomar água na cozinha e, olhando para cima, pensei: "Nossa! Esse lustre da cozinha continua um horror!". Como era o dia da faxina e eu ainda não tinha encerrado o expediente, tive de encarar o gorduroso lustre. Tentei tirá-lo para lavá-lo com água e muito detergente, mas ele não sai de lá. Fiquei pensando em como resolver aquilo e lembrei de um limpa-forno que eu usei aqui. O produto é ótimo: é uma espuma que a gente espirra nos lugares sujos do forno, deixa agir por meia hora e depois passa uma esponjinha. É incrível, mas todas aquelas cracas do forno saem na maior facilidade. E não é propaganda enganosa, não. Bem, como tinha sobrado limpa-forno, tive a brilhante idéia de usá-lo no lustre, que é de vidro. Espirrei o bicho no lustre e voltei para a faxina do banheiro.

Voltei, passei um paninho, saiu toda a gordura, as mosquinhas mortas (credo!) e o lustre ficou um chuchu! Vi que tinha pingado limpa-forno no chão. Tudo bem. Peguei um paninho para limpar e foi aí que, aterrorizada, percebi que no lugar em que tinha caído o limpa-forno tinham ficado umas manchas brancas no piso. Pensei: "Putz! Manchei o chão da cozinha! Lá se vai a caução que pagamos pelo apartamento!" Meu terror durou poucos segundos, porque percebi que não é que o chão tinha ficado manchado naquele lugar. Na verdade, ele tinha ficado LIMPO! O limpa-forno tinha limpado a sujeira do chão.

Não acreditei! Espirrei limpa-forno em uma área um pouco maior perto das manchas, deixei agir e limpei. O piso ficou realmente limpo! Daí, não tive dúvida, comecei a espirrar limpa-forno no chão de toda a cozinha! Arrastei fogão, geladeira, armário, tudo! Assim como Jack, o Estripador, eu ia fazendo a limpeza por partes. No fim do dia tinha acabado o limpa-forno e ainda tinha bastante cozinha! Tive de parar, mas tirei até uma foto pra vocês terem uma idéia do meu pasmo!

[essa foto foi retirada por mim]


A parte clara, é a que está limpa, é óbvio! Aquela "rodinha" na parte suja foi o lugar onde tudo começou...

Claro que à noite eu não conseguia dormir de tanta dor nos braços. Porque o produto tira sujeira com facilidade, mas quando a sujeira já tem mais de 30 anos a gente tem de dar uma esfregadinha... Só consegui terminar o trabalho na terça-feira seguinte, mas fiquei feliz. O Felipe passou a ter dificuldade para se equilibrar só de meia na cozinha de tão lisinho que o chão ficou. E nós agora temos de usar óculos escuros para entrar lá: de dia porque o chão está refletindo a claridade de fora, à noite, porque o lustre está tão limpo que a lâmpada realmente consegue iluminar!

Diante disso, comecei a pensar na possibilidade de fazer o mesmo nas manchas da sala, mas já estou desistindo. Pelo jeito não dá pra limpar só uma parte e a possibilidade de esfregar de esponjinha o chão da casa toda não me agrada nem um pouquinho! Vamos ver o que vai dar! Eu já estava conformada com elas mesmo, não é? Pelo menos agora eu sei que elas estão lá porque eu quero e não porque me venceram...

Ei! Pensei uma coisa agora! E seu eu usasse o limpa-forno nas minhas próprias manchas? Não, não... Acho que não ia ser legal! Melhor esquecer...

Bem... vou ficando por aqui. Estou revoltada! Hoje tínhamos combinado de fazer um piquenique mas, com um frio desses, quem é que se anima a sair de casa? Ai que saudade da nossa terrinha!

Antes de terminar só gostaria de dar uma boa notícia! O Felipe já está almoçando regularmente na escola! Até ganhou o boneco do Homem-Aranha que tínhamos prometido nos idos do mês de novembro! Na sexta-feira, quando fui buscá-lo, escutei um monte de elogios da professora e fiquei muito orgulhosa. Ai! Mãe-coruja é fogo!

quinta-feira, abril 29, 2004

Nossa! Demorei para escrever! É que às vezes eu acabo me complicando aqui nas minhas tarefas e vou deixando para depois, para depois...

Quero dar notícias do final de semana. Enfim, a primavera de verdade! Sol e até mesmo um pouquinho de calor! Claro que à sombra o ventinho ainda castiga, mas, já não precisamos sair totalmente encasacados. Cheguei mesmo a colocar manga curta na Ana Luíza! Não pensei que essa época fosse chegar.

No domingo fomos fazer um passeio aqui por perto. Fomos nós quatro mais o Alexandre, um amigo do Vidal, brasileiro, que está estudando aqui também. Conhecemos dois lugares: Carnac e a floresta de Paimpont, (valeu a dica, Xana!).

Estamos próximos da Bretanha, região que é cheia de histórias e lendas. E cheia de sítios arqueológicos também. O primeiro lugar que fomos conhecer, Carnac, tem vários alinhamentos megalíticos, que, trocando em miúdos, quer dizer uma porção de grandes pedras (chamadas menires) colocadas em pé por homens pré-históricos do período neolítico, que ocorreu mais ou menos 5000 anos atrás. Um tempão! Além dos menires, também existem na região de Carnac os dólmens que são túmulos da mesma época. Como não poderia deixar de ser, é nessa cidade que existe um dos maiores museus de pré-história do mundo, não em tamanho, mas na quantidade e na qualidade do acervo.

Um dos motivos que nos levou a escolher esse passeio foi uma série de perguntas que o Felipe nos fez na semana anterior. Nós já estávamos nos preparando para "aquele" tipo de pergunta, do tipo "como é que eu fui parar dentro da sua barriga?", mas ele nos surpreendeu com coisas, como dizer, mais profundas.

Num fim de domingo, estávamos assistindo à televisão e ele, de repente, veio com a seguinte pergunta (ele se complicou bastante na hora de formulá-la, e eu vou apresentar uma versão mais direta da dúvida que ele tinha):

- Tudo bem. Eu vim de você, você veio da vovó, a vovó veio da bisa... Mas, quem foi que começou tudo isso?

Resumindo, ele queria saber quem foi o primeiro ser humano! Ficamos meio perplexos, demos umas risadinhas e ele ficou revoltadíssimo com isso. Pedimos desculpas e decidimos responder. Até pensamos na história do macaco, mas achamos que Darwin é meio demais para uma criança de quatro anos. Então utilizamos a versão bíblica:

- Foi o Papai-do-céu quem criou o primeiro homem e a primeira mulher. Eles tiveram filhos, que tiveram filhos, que tiveram filhos e assim foi até chegar na gente!

- Ahnnn...

Já estávamos quase respirando aliviados quando ele saiu com essa:

- E quem criou o Papai-do-céu?

Dureza! Filosofia pesada num domingo à noite?

- Isso ninguém sabe, Felipe...

- Ninguém sabe?

- Ninguém!

Ele ficou meio decepcionado. É por isso que quando decidimos sair um pouco no domingo de sol, resolvemos escolher um local pré-histórico. No museu tem alguns esqueletos (que foi, de longe, o que ele mais gostou do passeio), e nós pudemos apresentar: "Felipe, primeiros homens. Primeiros homens, Felipe." Tudo bem! Foi uma meia verdade isso, já que acabei de descobrir na Internet que os primeiros seres parecidos com um humano apareceram há 4 milhões de anos. Mas, aqueles esqueletos lá estavam muito mais próximos dos primeiros do que nós, não é?

Mas, vejam como as crianças são volúveis. Andamos mais de 100Km para acalmar as dúvidas existenciais da criatura e o que mais o impressionou foi descobrir que dentro dele também tem um esqueleto!!! Tudo bem. O passeio valeu mesmo assim.

Saímos do museu e fomos fazer um piquenique. Agora, não fazemos mais farofa, fazemos piqueniques. Com direito a toalha sobre a grama e tudo. Vejam só que bucólico:

[essa foto foi retirada por mim]


O piquenique aconteceu ao lado de um dos alinhamentos, chamado Kermario. Foi muito legal ver as pedras alinhadas. Os alinhamentos que vimos tinham, cada um, em torno de 1 Km de extensão com pouco mais de 1000 pedras alinhadas em 10 fileiras. As pedras são enormes, pesadas, e tiveram de ser arrastadas e erguidas no lugar, o que deve ter dado um trabalho enorme. Tinham tempo esses primeiros humanos. Ô inveja!

[essa foto foi retirada por mim]


Ninguém sabe o objetivo desses alinhamentos. Claro que existem várias teorias: calendário (pela incidência do sol eles poderiam determinar a época do ano), astrológica (previsão dos eclipses), religiosa, extra-terrestre... Eu acho que na verdade o problema era o tédio! Afinal, o que aquele povo tinha pra fazer a não ser arrastar pedras? Foi nessa época, no neolítico, que o homem deixou de ser nômade, começou a praticar a agricultura, a ter vida sedentária, criar barriga... Não tinha shopping, Internet, cinema, televisão... E mais, estou desconfiada que os descendentes diretos daquele pessoal, hoje ficam alinhando dominós. Como isso é bem mais fácil e mais rápido de fazer, eles derrubam tudo, para depois começar de novo... Sei lá, eu acho...

Vimos somente um dólmen, embora existam vários espalhados pela região. O que vimos era bem pequenininho, mas existem túmulos com até 15m de altura. Olha o nosso mini dólmen aí:

[essa foto foi retirada por mim]


Bem, as pedras são muito interessantes, mas são todas meio iguais... Como ainda tínhamos tempo, decidimos conhecer um outro lugar e fomos até a floresta de Paimpont. Imagino que vocês devem estar se perguntando: "mas que diacho de floresta é essa que merece uma visita?" Vocês verão...

Diz a lenda (e o Guia Michelin) que depois da morte de Cristo, José de Arimatéia, um dos seus discípulos, saiu da Palestina levando algumas gotas do sangue de Jesus na taça em que ele bebeu durante a última ceia. O discípulo chegou até a Bretanha, na floresta de Brocéliande, e depois desapareceu completamente.

No século VI o Rei Arthur e cinqüenta cavaleiros decidiram recuperar a preciosa taça, o Santo-Graal, a qual somente um guerreiro de coração puro poderia conquistar. E eles partiram, junto com o mago Merlin, para a tal floresta e, a partir daí, centenas de lendas se criaram. Inclusive aquela que diz que Merlin se apaixonou pela fada Viviane e que ela acabou fazendo um feitiço que o deixou para sempre preso na floresta. Maneira esquisita de demonstrar amor...

Pois bem, a tal floresta de Brocéliande nada mais é do que a atual floresta de Paimpont! Há vários locais que referenciam a lenda na dita floresta, mas como não tínhamos muito tempo, escolhemos dois: o Vale sem Retorno e a Tumba de Merlin.

Guias e uns poucos mapas incompletos em punho, partimos de Carnac em direção às lendas. Nada de homens das cavernas colocando pedras em pé! A partir daquele momento, só fadas, magos e encantamentos...

A floresta é enorme! Bem, na verdade, não é bem o que nós, brasileiros, conhecemos por floresta. Quando a gente fala em floresta, pensa em algo como a Floresta Amazônica. A floresta deles é um pouco mais modesta, e nós aí chamaríamos de bosque ou mata. Eu dei um desconto para os bretões porque descobri que houve um grande incêndio nessa floresta em 1990, que durou cinco dias e destruiu árvores centenárias. Mas, dê-se o nome que quiser, floresta, picada, mato, bosque ou capão, o lugar é lindo mesmo assim.

Caminhamos vários kilômetros e o tal Vale sem Retorno não chegava. Enquanto rodávamos, fomos conhecendo um pouco da lenda. Morgana, danada da vida porque ganhou de presente de um dos seus vários amantes um belo par de guampas, resolveu "pinchar uma mardição" no vale: todos aqueles que fossem infiéis às suas digníssimas, não conseguiriam sair mais de lá. Imagino que a população masculina começou a diminuir sensivelmente, até que, Lancelot, o perfeito, o magnífico, fidelíssimo à sua amada Güinevere, acabou com a festa e os encantamentos malvada Morgana, quebrando todas as maldições. Sorte dele, da Guinevere e do monte de turistas do sexo masculino que podem, enfim, respirar aliviados e passear na floresta sem medo.

Pensei em ocultar esse detalhe sobre o fim do encantamento do Vidal e do Alexandre, só pra fazer um teste, mas achei que os dois são bem comportadinhos e entreguei o jogo todo. Será que fiz bem?

E nada do vale. É verdade que a gente não tinha mapas muito competentes, mas já era pra estar chegando. Foi aí que eu, sem querer, virei para trás e li uma placa que estava no sentido contrário da estrada indicando a entrada para o vale. Ainda bem! Fizemos meia-volta. E tocamos adiante. Muito poucas placas no caminho. Por via das dúvidas eu sempre dava uma olhadinha para trás pra ver se não tínhamos perdido mais alguma indicação. Pensamos que, na verdade, o vale sem retorno tinha esse nome porque a gente não conseguiria nem encontrá-lo, nem voltar de lá. Ninguém falou nada, mas acho que, lá no fundo, cada um tinha um medinho de ficar para sempre por ali. Claro que tinha sobrado um monte de coisas do piquenique, mas aquilo não ia durar eternamente, né?

Enfim, depois de ir, voltar, parar, duvidar... chegamos!

Parênteses. Agora mesmo, pesquisando algumas coisas na internet, descobri que a placa só de um lado da estrada é característica dos lugares turísticos na Bretanha. Isso quer dizer que, para viajar por lá, ou você escolhe o lado certo da estrada (o lado das placas), ou deixa um jacu virado pra trás pra poder ver o que já passou. Claro que não pode ser o motorista por motivos óbvios. Já viram para quem vai sobrar o torcicolo nas próximas viagens, né?

O lugar é realmente muito bonito. Enquanto estávamos indo, vários turistas e, entre eles, homens, estavam voltando, o que significa que o encanto realmente foi quebrado. Tive a impressão de perceber um suspiro de alívio no Vidal e no Alexandre... Não, não... Acho que foi só impressão! Ou será que não?

Chegamos até a "Árvore de Ouro", um tronco de carvalho dourado, cercado de pedras e de alguns outros troncos carbonizados. Simboliza que a floresta renasceu das cinzas depois do incêndio de 1990. Legal!

[essa foto foi retirada por mim]


Voltamos ao carro para chegarmos ao nosso último destino: a tumba de Merlin.

Tínhamos de voltar àquele local onde estava a placa de um lado só da estrada, continuar adiante e atravessar a floresta até a outra extremidade. E lá fomos nós. Andamos, andamos e chegamos a uma outra estrada. Esquerda ou direita? Esquerda! À direita não tinha floresta. Um carro vermelho estava vindo do lado esquerdo, então imaginamos que ele tivesse ido também prestar uma homenagem ao mago.

Chegamos a um castelo que, como dizia o guia, ficava depois do tal túmulo, ou seja, tínhamos passado a entrada do lugar. Meia-volta! Toca pra trás. Cruzamos novamente com o carro vermelho. Eles também estavam perdidos!

No lugar em que viramos à esquerda, decidimos seguir adiante. Nada de floresta, nada de tumba. Meia-volta, novamente!

Começamos a ficar irritados. O Vidal disse que para ele já era uma questão de honra achar o tal lugar. Estávamos voltando por onde tínhamos ido quando vimos um grupo de pessoas paradas na beira da estrada. O Vidal desconfiou. Decidiu parar também. Ele desceu, atravessou a estrada e viu, escrito com canetinha e em italiano numa pilastra de uns 50cm de altura: "Tumba do Merlin" e uma setinha. Inacreditavelmente, era ali. Quer dizer, não era bem ali, ainda tínhamos de andar uns 500m pelo meio do mato. Coitada da Ana Luíza, o carrinho chacoalhava um monte no chão irregular. Mas, o pior nem foi isso. Dêem uma sacada no jeitão da tumba:

[essa foto foi retirada por mim]


Micão brabo! Três pedrinhas amontoadas num cercadinho e só! Tudo bem, a gente não estava esperando letreiros de néon, um fantasma do Merlin de chapéu cônico e tudo o mais. Já tínhamos aprendido pela experiência no cemitério em Paris que esse tipo de coisa não acontece. Mas tínhamos rodado um tempão atrás do tal túmulo... Ele estava cheio de papeizinhos com mensagens, pedidos, sei lá. Não gosto muito de mexer nessas coisas, mas o Vidal pegou alguns deles para ler, tamanha era a indignação. Acho que ele teria feito uma fogueirinha dos papéis, se não fosse a falta de fósforos. Na verdade, o lugar era meio sinistro: tinha uma guirlanda ressecada pendurada naquele tronco bem junto às pedras, tinha um pedaço de roupa enrolado num galho bem alto de uma das árvores e eu vi um botão de roupa também preso entre as folhas de outra árvore. Se aquilo não fosse um feitiço, então tinha rolado uma suruba legal por ali. O Alexandre até chegou a comentar que o lugar tinha um aspecto que estava muito mais para "Bruxas de Blair" do que para "Brumas de Avalon". Deu até um arrepio.

Tiramos umas fotos pra gente poder rir da nossa própria cara depois e "picamos a mula" correndo dali. Voltamos por um outro caminho, no fim do qual eu pude ler em uma placa meio apagada que aquelas pedras, na verdade, eram remanescentes de um alinhamento de menires do período neolítico etc. e tal. Deu uma salvada no clima, mas não muito, uma vez que a gente já tinha visto um monte de menires. E tem mais! Depois me contaram que a lenda diz que o Merlin não morreu: foi vítima de um feitiço e que está lá na floresta até hoje. Só que não é no lugar em que dizem ser tumba dele! Disso temos certeza! Ele não estava lá. Ingrato!

Olha, o negócio é o seguinte: na próxima vez em que eu falar que fui atrás de uma tumba, vocês podem parar de ler a história. Não sei de onde vem essa idéia mórbida de visitar a morada eterna de gente que eu não conheci, só sei que todas as vezes em que eu fui atrás de um defuntozinho me dei mal. Uma vez tirei uma foto com a cara mais compungida do mundo na frente de um túmulo que eu achei que era do Galileu Galilei. Descobri que não era quando encontrei o verdadeiro túmulo do Galileu Galilei. Tirei outra foto, mas dessa vez já foi meio difícil disfarçar a risada. Daqui pra frente só vou atrás de um finado se eu tiver a oportunidade de ir ao Egito. Tenho certeza de que lá não vou me decepcionar, afinal as pirâmides todo mundo sabe onde fica, elas são enormes e, com certeza, valem a visita!

O Vidal até perguntou se ainda tinha mais alguma coisa para ver. Eu disse que o guia falava de uma Fonte da Juventude, mas a gente nem se arriscou a ir até lá. Ainda bem. Vi na Internet uma foto da tal fonte e ela não passa de um olho d'água perdido em algum ponto qualquer.

Voltamos dali mesmo. Claro que nos perdemos ainda uma vez antes de encontrarmos a estrada de volta. Mas foi um dia ótimo! É muito bom sair de vez em quando para espairecer!

Outras fotos desses nossos passeios já estão disponíveis no nosso Álbum de Fotos. Também descobri um site na Internet que tem fotos lindas da floresta. É claro que elas são muito mais bonitas que as nossas. Mas, tudo bem. Posso conviver com isso! Clique aqui para ver o site.

Por hoje é só pessoal! Prometo que vou tentar escrever com mais freqüência.

sexta-feira, abril 16, 2004

Elas me venceram! As manchas no chão da sala... Eu contei que já tinha esfregado o chão valendo sem sucesso e disse que ia atacar de água sanitária, lembram? Fiz isso e, novamente, elas não deram a menor bola para meus esforços. É preciso reconhecer uma derrota. Mas não é essa pequena batalha perdida que vai me derrubar. Não! Tenho muitas vitórias pra contar nesse lado doméstico da minha vida...

Vocês sabem que eu tinha tanta intimidade com o serviço de uma casa quanto eu tenho com mecânica de automóveis, né? Pelo menos, com os carros, eu sabia que, se por acaso tivesse um problema na rua, era só parar, abrir o capô e ficar olhando para o motor com cara de ponto de interrogação até aparecer uma alma caridosa para resolver meu problema. Pois bem. Na primeira vez que me vi diante de uma pia cheia de louça fiz o mesmo: fiquei parada olhando para ela com cara de ponto de interrogação. Não adiantou. Tentei o ponto de exclamação. Ninguém apareceu. Reticências... Nada! Percebi que era eu mesma quem tinha de resolver aquela bagunça!

Tudo bem, estou exagerando, eu sei. É claro que eu já tinha lavado louça na minha vida antes. Mas, roupa e na mão... Nunca! Quando chegamos aqui, ficamos 20 dias num apart-hotel. Num flat, para usar um termo em bom português. Depois de alguns dias eu já tinha uma pilha de meias, cuecas, calcinhas e roupas do Felipe pra lavar (como criança suja roupa!). Achei que ia ser super simples e fiz o que era óbvio: comprei uma caixa de sabão em pó, enchi uma bacia de água e coloquei tudo lá dentro. No dia seguinte, enxagüei bem, torci e, chocada, vi que tudo continuava completamente sujo! Fiquei tentando imaginar o que eu tinha feito de errado. Comecei a vasculhar minha memória em busca de filmes, novelas, essas coisas que eu podia ver quando não tinha uma casa pra cuidar, em que aparecessem mulheres lavando roupa. Lembrei! Para a roupa ficar limpa a gente tem de esfregar! Resolvi experimentar. Incrível! Não é que deu certo?

O problema é que, no terceiro par de meias (alguém pode me explicar porque fui comprar tantas meias brancas para o Felipe?), minhas mãos já estavam em frangalhos. Foi quando eu ouvi um barulhinho assim: chec, chec, chec. Olhei pro lado. Era o Felipe. Ele estava me "ajudando" a lavar a roupa. O tampo da pia da cozinha tinha uma parte cheia de ondulações. Ele tinha pegado uma peça e ficava passando para frente e para trás sobre aquelas ondulações. Olha só! Ele tinha descoberto o objetivo daquilo! Tudo bem. É meio nojento isso: lavar roupa íntima na pia da cozinha. O problema é que aqui não existe área de serviço nos apartamentos e casas. Pelo menos, não naqueles que tivemos a oportunidade de conhecer. Portanto, também não temos pia de cozinha. O que temos é um "tampia" ou um "pianque", como vocês preferirem, ou seja, uma coisa que serve ao mesmo tempo de pia de cozinha e de tanque. Pelo menos da torneira sai uma água "pelando fogo", como diz o Felipe, e a gente pode "escaldar" tudo quando muda de um serviço para o outro.

Mesmo a descoberta do Felipe ajudando bastante, ainda assim não estava achando aquilo muito legal. Sonhava com a suave melodia de uma máquina de lavar roupa funcionando! E comecei a perceber que uma casa é um lugar cheio de mistérios e fonte de muitas lendas... Primeiro exemplo: não sei se vocês sabem, mas dizem que a origem da cornucópia, aquele chifre de onde ficam jorrando eternamente frutas, sementes e coisas do gênero, seriam os cornos de uma cabra, chamada Amaltéia, que teria amamentado Zeus enquanto o poderoso fugia do pai que queria acabar com a raça dele e blá, blá, blá. Mentira! A origem da cornucópia é um cesto de roupa suja! Aquilo nunca fica vazio, por mais que a gente se esforce para lavar tudo. É impossível! A gente tenta, tenta, chega quase a esvaziá-lo, mas, um dia de bobeira e... pronto! Já está o bicho transbordando de novo. Por isso, tenho certeza de que quem inventou essa história da cornucópia só colocou essa coisa da cabra que amamenta um deus para ficar mais romântico. Na verdade, a idéia veio é do cesto de roupa suja mesmo!

E tem mais! Estou certa de que existe um buraco negro entre o cesto de roupa suja e a mesa de passar roupa. Se isso não for verdade, como explicar os pés de meia que simplesmente desaparecem? Felizmente todo mundo tem dois pés aqui em casa, mas sempre acaba sumindo um ou outro. É ou não é de espantar?

Estava começando a ficar desesperada com a tal da roupa. Me vi na obrigação de baixar decretos. Por exemplo, enquanto não tivéssemos máquina de lavar roupa, todo mundo tinha de almoçar pelado! Principalmente quando fosse comida com molho de tomate. Aliás, toalha de mesa? Dispensável! Mais fácil passar um paninho do que tentar tirar manchas de gordura de tecido. É por isso que as mesas não são mais de madeira de lei. Tudo de fórmica que é pra ser mais prático. E assim foi até comprarmos um dos grandes inventos da humanidade: uma máquina de lavar roupa. Ela é tão importante na nossa vida que vou dedicar um outro relato especialmente a ela. Esperem pra ver.

Por falar nessa história de inventos... Vou confessar uma coisa aqui. Entre os sete pecados capitais, eu reconheço fraquejar em dois. O primeiro deles é a preguiça. Admito, admito! Numa outra vida devo ter saído da barriga da minha mãe falando "ô meu rei... se avexe não...". Eu ficava meio chateada comigo mesma por causa disso. Mas comecei a refletir e cheguei à conclusão que os grandes inventos da humanidade foram criados por grandessíssimos preguiçosos. Vou explicar. Se não fosse pelo fato de alguém estar morrendo de preguiça de ter de arrastar as coisas, ainda não teria sido inventada a roda. É ou não é? Se não fosse a preguiça, porque tentar achar uma forma mais fácil de fazer alguma coisa difícil? Assim caminha a humanidade: preguiça de bater claras em neve? Liquidificador! Preguiça de ficar na frente do fogão esperando dar o horário de desligar o leite? Microondas! Preguiça de esfregar a roupa? Máquina de lavar! E por aí vai. E quem disser que não necessariamente essas coisas foram inventadas por quem, por exemplo, realmente tinha de lavar roupa, eu respondo: é verdade. O que só prova minha teoria! Essa criatura é tão preguiçosa, que tem preguiça só de pensar na tarefa que alguém teria de fazer e pimba! Inventa uma máquina. Minha preguiça ainda não me levou a inventar nada. Mas pelo menos estou com a consciência mais tranqüila...

Ahn? Qual é o outro pecado em que eu fraquejo? Ah, acho que não vou contar. Seria a avareza? Quem sabe a inveja? Ou talvez... a luxúria? Hein? Hein? Nada disso! Uma simples e mundana gula... Fazer o que...

Bem, essa gula também está tendo um efeito positivo: encontrei uma mestre-cuca escondida em mim. O problema é que o fato de cozinhar bastante me fez descobrir um outro mistério de uma casa...

Muitos cientistas já se perguntaram de onde se origina a vida. Lá pelo século XVII um maluco chamado Jean Baptista Van Helmont desenvolveu a teoria da "geração espontânea" que queria dizer mais ou menos o seguinte: a vida aparece espontaneamente a partir de uma matéria bruta. Deixe um pedaço de carne em um lugar qualquer e dias depois ele vai estar coberto de larvas. De onde vieram essas larvas? Do nada! Foram geradas espontaneamente (Coisa mais nojenta). Ele também tinha uma "receita" para a produção de ratos (chegadinho numa porquice esse tal de Van Helmont...). É claro que um monte de gente caiu matando em cima do coitado, dizendo que aquilo era um absurdo, que essa tal de geração espontânea não existia, etc., etc., etc. Homens! Mal sabem eles que a geração espontânea existe sim! É só fazer uma experiência bem simples...

Pegue uma cozinha cheia de louça suja e arrume tudo. Dê uma voltinha e reapareça logo em seguida. Você vai ver que começa a surgir, do nada, mais louça suja! Um copinho aqui, uma colherinha lá e, em pouco tempo, a pia já está cheia de novo. É ou não é uma geração espontânea? Você vai andando pela casa e lá estão elas: atrás da televisão, no chão, do lado do sofá... É uma loucura! Às vezes, elas estão mais agressivas. Você acaba de arrumar a cozinha, abre o fogão assim como quem não quer nada e encontra uma travessa imunda! Tem dias em que, além de agressivas, elas também estão abusadas: você termina a cozinha, enxuga a pia com papel-toalha (de vez em quando baixa o espírito da mania de perfeição), olha satisfeita para o trabalho concluído, vira as costas e dá de cara com um liquidificador sujo em cima do forno de microondas! É de matar!

Por favor, não confundam a geração espontânea com aquela outra coisa que acontece quando a gente se oferece, gentilmente, para lavar a louça para alguém e a dona da casa começa a desenterrar da geladeira potinhos de conteúdo geralmente cabeludo para a gente lavar. Isso não tem nada a ver com geração espontânea. Isso aí é sacanagem mesmo!

E os mistérios de uma casa não param por aí! Estou convencida de que existe um saci que passa pela nossa casa na madrugada de domingo para segunda. Sim, porque acho impossível acreditar que a bagunça que está na casa na segunda-feira de manhã já estivesse lá no domingo à noite! Tenho certeza de que isso é obra de um saci. Quer dizer, como estamos na Europa, talvez seja um Leprechaun que decidiu dar um tempo na sua tarefa de cuidar do pote de ouro que existe no final do arco-íris, e resolveu imitar o amigo brasileiro. O fato é que, saci ou duende, o resultado prático é que toda segunda-feira de manhã eu passo pelo "momento desolação" da semana quando dou uma olhada no estado geral da casa...

Do jeito que eu estou falando, até parece que estou achando ruim essa vida de mãe-esposa-dona-de-casa. Não! Tenho me divertido bastante e aprendido também. É meio cansativo, é verdade. Mas tenho criado meus mecanismos de defesa. Estou pensando em elaborar o "estatuto da dona de casa". Olhem só o que eu já carminholei:

1 - Estabeleça um horário de trabalho e cumpra-o à risca. Sua jornada se encerra às 19h00? Então encerre mesmo. Se for preciso, saia de casa, fique sentada na porta por uns cinco minutos e entre, se jogando no sofá e dizendo: "Puxa! O dia no trabalho hoje foi de matar. Nada como chegar em casa e dar uma relaxada!"

2 - Respeite seu horário de trabalho. Esses dias, quando decidi que era hora de parar, fui tomar um copo d'água na cozinha. Enquanto tomava a água, olhei para cima e pensei "Nossa! Esse lustre da cozinha está um horror!". Já estava quase pegando um paninho quando disse para mim mesma: "Nem pensar!". Se eu fizesse isso, com certeza ia dar meia-noite e eu estaria de balde em punho lavando os vidros da sala.

3 - Escolha um dia para ser o "dia da faxina". Nos outros, faça só o básico. Eu escolhi a terça-feira. Por quê? Bem, na segunda não dava (tem o problema do saci...). Na quarta-feira o Felipe não tem escola... Quinta e sexta já estão muito próximas do sábado. Do jeito que eu fiz, como os outros dias vão ser mais leves, meu final de semana já começa na terça-feira à noite (olha a preguiça se manifestando aí).

4 - Resista à tentação do "vou lavar só essa loucinha...". Não faça isso! Se você começa lavando uma loucinha, elas começam a se multiplicar feito loucas (não se esqueça da geração espontânea), e você acaba não fazendo mais nada o dia todo! Deixe acumular um tanto razoável na pia e só depois se atraque com as bandidas.

5 - Resigne-se ao fato de que, amanhã, você vai ter de fazer de novo tudo o que fez hoje. É assim mesmo. Portanto, não vale a pena querer "adiantar" as coisas. Não dá. Deixe para amanhã o que deve ser feito amanhã e pronto. Agora eu entendi uma história que a Selvina, que trabalhou na minha casa por quase 10 anos, me contou. Ela disse que o castigo dado à mulher por causa daquele episódio da maçã era ter de fazer o serviço doméstico. Ele nunca acaba e todos os dias tem de ser refeito. Bem bolado esse castigo, né? O problema é que na época da Eva, todo mundo comia com as mãos e só vestia folhas de parreira (que são descartáveis). Sacanagem o que a esposa do Adão foi fazer com a gente... Já estava na hora de o divino rever esse castigo, não é verdade?

Esses são os primeiros artigos, que tal? Ainda vou trabalhar mais em alguns detalhes. Vai ficar profissional, vocês vão ver...

De maneira geral e apesar de toda a inexperiência, tenho me saído bem. Claro, às vezes as coisas não dão muito certo, como o dia em que fui lavar o banheiro de esguicho e ele ficou fedido por uma semana! O problema é que no nosso banheiro o encanamento é todo aparente. Isso é ótimo na hora de fazer um reparo, mas cria cantos inatingíveis. Logo que chegamos aqui, empolgada pelo sucesso das minhas primeiras limpadas de banheiro, resolvi lavar tudo de verdade e taquei água valendo por trás de todos os canos. Saiu uma quantidade inimaginável de sujeira, só que ficou alguma coisa lá. Essa "coisa" ficou encharcada e demorou dias para secar. O cheiro era horrível. Não quero nem saber o que era, mas decidi que, esguicho no banheiro, nunca mais! Claro que tem a hora de o banheiro tomar banho. Nesses dias, depois que acabo o serviço, de vez em quando volto lá só pra respirar um pouquinho. Fico orgulhosa de mim mesma!

Outro fato interessante... Desenterrei de algum canto obscuro da minha memória a lembrança de algumas propagandas de amaciante de roupa. Achei que valia a pena investir nisso porque notei que as roupas ficavam meio duras depois de lavadas. Fui lá e comprei o mais barato que tinha no mercado. Bem, amaciante, como o próprio nome diz, devia amaciar a roupa, não é? Só que um dia, quando fui recolher as toalhas de banho do varal, sem querer, deixei uma delas cair no chão. Ela parou de pé! Achei aquilo meio estranho. Mas a certeza de que o amaciante não estava fazendo o trabalho dele veio no dia em que o Vidal me perguntou:

- Você tem usado amaciante de roupa?

- Tenho, por quê?

- É porque ontem de manhã coloquei uma cueca e saí de casa. Tive de andar bastante e... bem... as partes, sabe? Ficaram todas esfoladas...

Claro que ele colocou mais roupa por cima da cueca, afinal aqui faz um frio danado. Mas nesse dia tive certeza absoluta de que o ditado "o barato sai caro" é a mais pura verdade! Fui correndo ao mercado e comprei um produto mais decente! Achei uma injustiça o amaciante estar estragando meu trabalho porque, depois da máquina de lavar, tenho me saído muito bem no quesito "lavagem de roupa".

Bem, para falar a verdade, teve a ocasião em que acumulei vários panos de prato para lavar. Vocês sabem, os panos de prato... Aqueles pedaços de tecido que servem para tirar a sujeira que não saiu na esponja! Eles geralmente ficam num estado lastimável. Pois bem, muita água sanitária e sabão em pó rolou pelo meu "pianque" até que eu terminei tudo. A primeira parte da lavagem foi na mão mesmo, vejam só que progresso. Como estava empolgada na empreitada, decidi lavar também os panos de chão. Quando terminei, pendurei tudo à altura dos olhos para admirar minha obra e foi nesse momento que percebi, horrorizada, que os panos de chão tinham ficado mais brancos do que os panos de prato! Achei aquilo um absurdo! E não tive dúvida: fui lá e, imediatamente, sujei os panos de chão!

terça-feira, abril 13, 2004

Fiquei alguns dias sem escrever, mas o motivo foi justo. Tivemos alguns maus momentos na semana passada. Quem estava acompanhando percebeu que tinham sido duas semanas seguidas com problemas de saúde do Felipe. Semana passada foi a terceira!

Na segunda-feira ele começou a tossir e eu a ficar desesperada. Eu sabia que ele teria uma crise e não tinha nada que eu pudesse fazer a não ser esperar. Eu e o Vidal discutimos e decidimos aguardar até o dia seguinte para levá-lo ao médico se fosse necessário. Até tentamos começar as inalações antes, mas não adiantou nada. Passamos a noite de segunda para terça-feira fazendo inalações a cada uma hora e meia, mas ele não melhorava. Às sete horas da manhã nós decidimos levá-lo ao hospital.

Quando chegamos lá ele estava com 86% da capacidade respiratória e estava muito mal. Eles fizeram inalações seguidas e o colocaram no oxigênio. Em seguida, nos disseram que ele deveria ficar internado até que a capacidade respiratória se mantivesse próximo de 100% sem o uso de oxigênio, e foi o que aconteceu. No mesmo momento eles nos informaram que a Ana Luíza não poderia ficar no hospital nem em horário de visita a fim de não correr riscos. Foram momentos muito difíceis para mim: de um lado o Felipe super fragilizado, morrendo de medo de ficar sozinho, de tomar injeção e de outro a Ana Luíza que ainda mama no peito e que não podia ficar no hospital conosco.

Felizmente pudemos contar com a ajuda valiosa de um casal de amigos que temos aqui: Cláudia e Alexandre. Entre as mamadas eu deixava a Ana Luíza na casa deles pra poder ficar um pouquinho no hospital com o Felipe. Durante a noite era só o Vidal com ele. Aliás, o Vidal entrou no hospital na terça-feira de manhã e só saiu na quinta-feira no final da tarde. Na quarta, no início da tarde, eu fiquei sozinha com o Felipe para que o Vidal pudesse vir em casa tomar um banho e comparecer ao banco, onde ele tinha um horário marcado para atendimento. O resto do tempo ele ficou com o Felipe. Para todos nós foi difícil, mas para ele foi ainda mais: passar o dia todo no hospital, sentado numa cadeira simples, dormir numa caminha de armar e sem travesseiro na primeira noite, isso depois de ter passado uma noite sem dormir porque estava terminando um trabalho que tinha de entregar. Não foi nada fácil.

Mas, de qualquer forma, é bom acontecer esse tipo de coisa pra gente poder ver o quanto somos abençoados e sem problemas. Por mais que a administração do hospital tente tornar o lugar o mais agradável possível para as crianças, é um hospital. No quarto do Felipe, quando ele chegou, tinha uma menina que já fez cirurgia no coração e que atualmente sofre de problemas no pulmão. O avô que estava com ela disse que é uma sorte ela ainda estar viva e que estava feliz porque daquela vez ela só tinha ficado uma noite. Normalmente as internações dela duram de 10 a 15 dias. No quarto vizinho tinha um menino da mesma idade do Felipe, o Romain. Os dois ficaram amigos e brincaram muito. O Romain tem o mesmo problema do Felipe, ou seja, crises de bronquite. Só que essas crises podem se manifestar de duas formas: dificuldade respiratória ou eczemas (feridas) na pele. O Felipe teve os eczemas uma vez nas costas. É horrível, a pele fica toda cheia de feridas. O Romain tinha essa manifestação, só que no rosto, nos pés e nas mãos. Deu muita pena.

Foi ótimo as crianças poderem brincar, mas isso nos colocou em situações pouco confortáveis às vezes. Quando eu fiquei sozinha com o Felipe, ele quis andar pelo corredor do hospital atrás de uns palhaços que iam no quarto de todas as crianças. O problema é que ele estava no oxigênio direto, então aonde ele ia, eu ia atrás carregando o bujão de oxigênio. À noite eu não conseguia mexer os braços de tão doloridos. E mais: eu e o Vidal não desgrudávamos dele nem por um segundo. Acabávamos brincando junto, como fazemos aqui em casa. Isso foi atraindo a atenção de outras crianças e, na quinta-feira, o Vidal se viu numa creche! O Felipe e mais dois meninos brincando no quarto com todos os momentos normais de uma brincadeira: os gritos, os movimentos bruscos e as brigas... Não queremos ficar julgando as mães dos meninos que estavam no hospital e que deixaram os filhos por conta do Vidal, mas foi meio cansativo isso. Teve um momento em que o Vidal foi enérgico: fechou a porta e disse que os dois iam descansar. Cuidar de um, e que é nosso, tudo bem... Mas, cada um que cuide do seu filho, né?

Eles saíram do hospital na quinta-feira à tarde. Dia do aniversário do Vidal. Ainda conseguimos fazer uma janta especial, mas decidimos que não estamos mais querendo datas festivas aqui em casa: no meu aniversário no ano passado o Felipe teve uma crise e nós passamos o dia de pijama; no Natal eu estava internada; no aniversário do Vidal, o Felipe estava internado. Não estamos tendo muita sorte nessas datas.

Por isso fiquei sem escrever muito nessas últimas semanas. Agora acreditamos que está tudo bem: ele está fazendo um tratamento preventivo contra as crises. Além disso, parece que enfim vai começar a esquentar nesta terra! Semana passada ainda tivemos zero grau de manhã! Quando o tempo fica mais quente, as chances de crises são menores.

Esta semana o Felipe está de férias. Fica em casa o dia todo o que me deixa com menos tempo para usar o computador. Na semana que vem prometo voltar a contar nossos "causos". Já tenho algumas histórias no gatilho.

Até lá!

quinta-feira, abril 01, 2004

Oi todo mundo! Mas, em especial, oi Gabriela!!! Parabéns! Muitas felicidades, etc e tal! 14 anos! Essa idade é ótima, vai começar para você um período muito legal da vida. Não vou dizer que é o melhor, porque, na verdade, o melhor período da vida é aquele que a gente está vivendo agora. Os outros já passaram ou ainda estão por vir e, portanto, não nos pertencem. Nossa! Me lembro como se fosse hoje a primeira vez que eu te vi: três anos, barriguinha de fora, os cabelos sobre os olhos, parada na calçada vendo o tio Vidal chegar com aquela tia nova: "Cadê a tia Simone?" (era a namorada anterior do Vidal...). Tudo bem, eu já perdoei isso... Nem bem eu entrei já pegou chicletes na minha bolsa, passou meu batom e... Chega! Tudo o que a gente NÃO quer quando tem quatorze anos é uma tia lembrando das nossas gracinhas de criança. Não! Não vou te fazer pagar esse mico, pode ficar tranqüila! Mesmo sendo uma tia "quase madrinha". Quase madrinha de batismo (cheguei tarde, né?), quase madrinha de crisma (estava longe)... Ei, quem sabe madrinha de casamento?

Aproveite bem o dia de hoje e todos que estão por vir. Estamos daqui mandando muitas bênçãos e alegrias para você!

Primeiro de abril... Não vou fazer nenhuma gracinha porque nunca fui boa nisso. E, para os curiosos, os franceses também "comemoram" o primeiro de abril. Aqui, além das brincadeiras, geralmente de mau gosto, ainda tem uma tradição: colar um peixe desenhado em papel nas costas dos outros (sem que eles vejam, é óbvio). Por isso o dia primeiro de abril é chamado "Poisson d'avril", que significa: peixe de abril. Ouvi uma explicação hoje na televisão, mas como ela mesma pode ser uma brincadeira de primeiro de abril, prometo que vou descobrir o que significa isso e publico aqui para vocês.

Mudando de assunto, a semana é nova, mas a notícia não. Novamente noites sem dormir por probleminhas de saúde do Felipe. Dessa vez foi uma inflamação de garganta. O problema é que inflamações de garganta sempre dão febres muito altas e difíceis de baixar. Dessa vez não foi diferente, chegou a 40.1 na terça-feira à tarde. Mas ele já está bem, podem ficar sossegados. A novidade desse novo episódio de saúde é que mudamos a tática para dar remédios...

Toda criança tem seus probleminhas de saúde e o Felipe não é uma exceção. A maior dificuldade é com as crises de bronquite como a maioria de vocês já sabe. Portanto, desde muito pequenininho, ele sempre esteve às voltas com remédios. Chegou uma época em que ele tomava oito diferentes no dia! Foi quando decidimos pela homeopatia. Também não deu muito certo. Voltamos para a alopatia. E os remédios sempre lá. O que acontece é que ele não conseguia tomar alguns deles, como anti-térmicos, por exemplo. A gente dava o remédio e ele vomitava tudo. Uma dificuldade! Isso nos fez desenvolver táticas de paciência e verdadeiras estratégias de guerra para conseguir que ele tomasse os medicamentos, além de contar com a colaboração dos médicos na prescrição de remédios com um gosto menos ruim. O que aconteceu foi o seguinte: ficamos reféns do Felipe! Cada vez que um novo remédio era prescrito, vinha o receio: será que esse ele vai conseguir tomar?

A primeira fase era a da dúvida: que gosto tem? Eu geralmente experimentava antes para fazer minha própria avaliação. Depois vinha a fase de negociações. Muitas vezes demorávamos mais de 20 minutos para convencê-lo a tomar uma dose. Quero deixar claro que nunca tivemos problemas para usar o método "força bruta": alguém segura os braços, outro, o nariz e a gente enfia goela abaixo. Mas tinha o problema dos vômitos. Quando enfim ele tomava, vinha a fase suspense: ficávamos alguns segundos ansiosos olhando para a cara dele e esperando pela reação. Ufa! Engoliu. Beleza! Ou então: vai buscar um pano de chão porque esse não deu... Mais de uma vez tivemos de mudar de antibiótico, por exemplo. Eu já estava indo à farmácia como quem vai ao supermercado: "Deixa eu ver... Sabor morango com leves toques de frutas vermelhas... É, esse vai dar. Sabor laranja com traços de menta? Nem pensar! Vamos ligar para o médico e pedir uma substituição!"

Na terça-feira nós o levamos ao médico e, antes mesmo de começar a discussão sobre o paladar do novo antibiótico, tivemos de ouvir: "Mas não é ele quem decide. Quem manda são vocês!" Tudo bem. Nós merecemos esse puxão de orelha. Agora vem nosso mecanismo de defesa: fomos nos acostumando a isso. Nós e o Felipe, é claro. Sim, porque ele já tinha aprendido o jogo e, quando aos oito meses ele vomitava o anti-térmico poderia ser sensibilidade gástrica, mas quase aos cinco anos fazer a mesma coisa já é malandragem mesmo. Só que a gente não tinha se dado conta disso.

Mudamos a tática. Agora não tem mais discussão. Tem de tomar e pronto. E se vomitar? Vai tomar de novo. E se vomitar de novo? Vai tomar de novo. E de novo, e de novo, e de novo, até parar no estômago. E não é que deu certo? No começo ele até que tentou fazer manha, uma regurgitaçãozinha básica. Mas fomos firmes. Foi duro sermos ríspidos com uma criança que estava com quase 40 graus de febre, mas sentimos que isso era importante. Para ele e para nós. Ia chegar um dia em que nem um antibiótico sabor chocolate com cobertura de leite condensado ia ser suficiente. E tem mais! Os remédios de hoje em dia estão cada vez mais agradáveis. No meu tempo não era assim, não! (Credo! Quando gente começa a falar "No meu tempo era diferente" é porque já está quase dobrando o Cabo da Boa Esperança...).

Na mesma terça-feira tinha a consulta mensal da Ana Luíza. Ela continua super bem, embora tenha crescido um pouco menos e, por conseqüência, ganho um pouco menos de peso nesse último mês. É claro que eu já fiquei de orelha em pé, achando que, com certeza, é culpa minha.

Vocês podem ir procurar no dicionário e vai estar lá: sinônimo de mãe: Culpa! E se não estiver assim no dicionário é porque quem fez esse verbete não foi uma mãe, já que tudo na mãe se resume em sentir-se culpada: a Ana Luíza não manteve a média de crescimento? Culpa minha. O Felipe faz manha pra tomar remédio? Culpa minha. Ele tem crises de bronquite? Culpa minha! Eu também tinha quando criança. Aliás, o Vidal também tinha. Aí, nesse caso, já dá pra dividir a culpa com ele. Como isso é herança genética, também dá pra jogar um pouco da responsabilidade para os nossos pais. E para os pais deles também, é claro. Pensando bem, já entrou tanta gente na jogada que nem estou me sentindo mais tão culpada. Ai que alívio!

É, minha gente, acho que não tem nada mais difícil do que ser pai e mãe. A gente tem de trabalhar para sustentar, tem de educar, mandar tomar banho, escovar os dentes, comer salada, tomar remédio, manter a ordem... Não pode deixar ficar muito tempo na frente da televisão, nem na frente do computador, tem de observar se está fazendo exercícios, comendo direito, dormindo direito, agasalhado o suficiente (nem muito, nem pouco). Tem de saber se vai bem na escola, tem de dar orientação espiritual... Tem de ler histórias, montar quebra-cabeça, brincar junto, levar ao parque de diversões, levar ao cinema, levar para passear. E o pior ainda está por vir: a adolescência! Fase em que vamos ter de ouvir que somos caretas. (Ih! Acho que hoje em dia só diz "careta" quem já é "careta". O que os adolescentes dizem hoje em dia?) Tudo isso vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana, sem direito a pedir férias ou demissão. Ah! É claro! E ainda tem de viver a própria vida, porque um dia os filhos crescem, saem de casa, resolvem fazer doutorado na França e ainda deixam você longe dos netos!

E não acabou por aí! Ser pai e mãe ainda significa levar bronca de médico, de professora, de psicólogo e até de apresentador de televisão. Ouvir as dicas dos amigos, da família, dos vizinhos. Como todos sabem, não existe nada mais fácil do que educar os filhos dos outros, então todo mundo tem um conselho de sucesso para dar. É uma pena que nada disso pareça funcionar com os filhos da gente. Como bem explicou nosso amigo Marcos: "Antes de ter meu primeiro filho, eu tinha um monte de regras de educação. Não deu nada certo. Aí veio o segundo filho. Eu refiz as regras, já que agora tinha experiência. Também não deu. Veio o terceiro filho. Resolvi jogar todas as regras no lixo, porque elas não servem para nada: cada um é diferente do outro". E é isso aí: cada filho, um novo trabalho de construção. Haja pique e energia! O mais incrível é que a gente tem certeza de que não viveria sem eles (os filhos) e, esquecendo todas as dificuldades, se pega um dia pensando: quem sabe um terceiro?

sexta-feira, março 26, 2004

Três meses da Ana Luíza! Dia de foto:

[essa foto foi retirada por mim]


Ela continua ótima. Como vocês podem ver, ela é super risonha, continua tranqüila, dorme a noite toda... Como toda criança, dá os seus "pitis" de vez em quando, é verdade, mas o melhor de tudo é que está ainda só no leite da mamãe! E engordando! Está com as coxinhas gordinhas e fofinhas (herança materna, né?). E eu continuo achando que dessa vez tem chance de eu ter uma criança parecida comigo dentro desta casa. Eu preciso disso! Vou contar um episódio antigo e tenho certeza de que todo mundo vai me dar razão!

O Felipe, vocês sabem, é a cara do Vidal. Tem fotos do Vidal quando bebê que poderiam ser colocadas no álbum do Felipe e vocês só iam achar estranho o tom amarelado das ditas cujas (o que denuncia a idade avançada do meu consorte)! Pois bem, eu sempre ficava meio injuriada porque, afinal de contas, fui eu quem carregou os nove meses e, além disso, tem os enjôos, a dor nas costas, a azia, a insônia, etc. etc. etc. e o bichinho era o pai escrito. Um dia, quando o Felipe era só um pouco maior do que a Ana Luíza é hoje, eu estava trocando a fralda dele e falei pro Vidal:

- Olha só! Parece que o Felipe tem celulite no bumbum!

E o Vidal respondeu:

- Que bom, né? Você não queria que ele tivesse alguma coisa parecida com você?

Dá pra acreditar?!!!! Vejam que ser humano bondoso e caridoso eu sou: além de não "dar nas fuças" do Vidal, eu ainda continuei casada!!!! Eu tenho ou não tenho razão de querer uma filha que tenha o rosto parecido com o meu?!

Outro assunto (porque essa coisa de celulite eu quero esquecer!)...

Amanhã começa o horário de verão aqui. Isso quer dizer que ficaremos com cinco horas de diferença até o final do mês de outubro. Para encontros no Messenger, então, vocês podem ter como horário limite para nos encontrar algo em torno de seis da tarde. Depois disso já fica mais difícil, principalmente durante a semana.

Mais um assunto... (a coisa está variada hoje!)

Vejam vocês como está ficando podre de chique este blog! Agora, no final de cada texto que eu publico aqui existem dois links: Comentários e Trackback.

O primeiro serve para vocês deixarem aqui mensagens de apoio, de saudade, de incentivo, ou fazerem críticas, sugestões e, principalmente, elogios (o ego precisa dessas coisas, sabe...). Basta clicar o link e aparecerá uma janelinha com espaço para vocês digitarem o que quiserem. Mas atenção! Tudo o que vocês escreverem vai ficar visível para qualquer pessoa que acesse o blog, certo? Por isso, caso alguém queira contar um segredo, falar mal de alguém, fazer uma confidência, é melhor evitar esse espaço. Para mensagens desse tipo, continuem me enviando e-mails, certo? Aha! Aposto que deixei um monte de gente com a pulga atrás da orelha pensando que estou sabendo de muitos segredos e fofocas, né? Vou vender caro essas informações depois! Precisamos de dinheiro para as passagens de volta, né?

O segundo link (Trackback) eu ainda não entendi direito para o que serve! O dia em que eu souber conto para vocês! Tem alguma coisa a ver com outro blog que faça referência ao meu blog... Sei lá! Não é nada de importante.

E, para terminar...

Amanhã tem Carnaval na escola do Felipe. É isso mesmo! Aqui eles festejam o Carnaval no meio da Quaresma e não me perguntem o porquê disso! Já teve desfile no centro de Nantes há umas duas semanas. Gostaríamos de ter ido, mas não deu. Amanhã tem Carnaval no centro de Saint-Sébastien e na escola. É claro que o Felipe vai vestido de Power Rangers, né? Há dias que ele está na maior ansiedade por causa desse evento. Hoje ele nos acordou às cinco da manhã:

- Papai...

- Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr....

- Mamãe...

- Ahnnnn...

- MA-MA-NHE!

- Ahn... Que foi?

- Depois desse dia (isso quer dizer amanhã), é o dia de eu ir de Power Rangers na escola!

- Ai Felipe, são cinco horas da manhã! Volta a dormir querido.

...

- Mamãe...

- Ahnnnnnnn...

- Quero um mamá...

- Buáaaaaaaaaaaa....

quinta-feira, março 25, 2004

Infelizmente, um assunto sério hoje. Vocês devem ter visto nos jornais que foi encontrada mais uma bomba em uma linha de trem aqui na França. Imaginamos que isso pode ter preocupado amigos e família que estão aí no Brasil, essa terra abençoada.

É verdade, e foi a segunda bomba encontrada nessas condições nas últimas semanas. Os possíveis responsáveis fazem parte de um grupo chamado AZF, do qual a gente não sabe muito e, pelo que pudemos ler rapidamente, nem mesmo os franceses têm pleno conhecimento das reivindicações.

Não vamos negar que os acontecimentos desse mês de março nos deixaram apreensivos, assim como todos os outros habitantes da Europa. É verdade que a França estava originalmente fora da lista dos países-alvo da Al-Qaeda, mas, como disse o presidente francês logo depois dos atentados de Madri: "Ninguém está a salvo". Um fato, particularmente, deixa a França vulnerável: recentemente foi aprovada uma lei que proíbe o uso de qualquer coisa (seja roupa ou acessório) de origem religiosa nas escolas públicas francesas. Os maiores protestos quanto à discussão e aprovação dessa lei vieram das mulheres muçulmanas que não podem mais usar o lenço sobre os cabelos. Isso pode ser suficiente para que um grupo de descontentes faça estragos por aqui, em sinal de protesto contra essa lei.

É uma pena que o mundo esteja dessa forma, mas, se está assim é por culpa única e exclusiva dos próprios humanos. Não houve nenhuma invasão extra-terrestre que viesse a ocasionar todas essas turbulências. Portanto, se os humanos causaram esse estado de coisas, eles próprios (ou seja, nós todos) devem resolver essa situação. Como? Não faço a mínima idéia! O que fico imaginando é que deve ter ocorrido alguma mudança genética nesse grupo de terroristas, porque eles perderam completamente o instinto de sobrevivência, inerente a qualquer pessoa. Li em uma revista uma coisa que me impressionou bastante. Em cartas enviadas logo depois dos vários atentados que eles cometeram havia uma frase: "Vocês querem a vida, nós queremos a morte". Como se defender de pessoas assim? Pessoas que estão dispostas a tudo, inclusive a morrer?

Dá uma revolta enorme ver o que essas pessoas fazem com quem não tem absolutamente nada a ver com o problema deles. Mas, infelizmente, eles perceberam que dessa forma conseguem se fazer notar. Fico tentando não alimentar sentimentos ruins dentro de mim, já que é isso que faz com que o círculo seja "vicioso" e não "virtuoso". É difícil, mas acho que até consigo às vezes. É um exercício constante de racionalidade, porque a raiva que dá ao ver as cenas de atentados é enorme.

Diante disso tudo, começamos a elaborar estratégias para nos sentirmos mais seguros. Em primeiro lugar, gostaria de dizer que não vivemos de tão perto essa ameaça. A vida continua normalmente e não temos sinais visíveis de que estamos em guerra. Sim, porque esta é exatamente a situação: estamos em guerra. Uma guerra mundial. Diferente daquela que estudamos nos livros de história, mas uma guerra assim mesmo. Pelo que vemos nos telejornais, a França parece estar bem preparada para situações de atentado, principalmente no sentido de minimizar as chances de que eles aconteçam. Existe um plano de vigilância anti-terrorista chamado "Vigipirate", que está a todo vapor já faz alguns dias. Justamente por causa desse plano é que essas bombas foram encontradas.

De nossa parte, decidimos tomar também algumas providências. Nada de muito especial, mas, mesmo sabendo que não se pode estar totalmente livre de uma fatalidade, sempre é bom se precaver. Já que, aparentemente, esses grupos terroristas têm a intenção de fazer sempre "mega produções", no sentido de atingir sempre um grande número de pessoas ao mesmo tempo, decidimos evitar o máximo possível os ambientes com muita gente (trens, estádios de futebol, shows). Também queremos fugir das grandes cidades, especialmente das capitais. Logo vão chegar as férias e temos a intenção de passear um pouco. Vamos, então, viajar de carro dando preferência às cidades pequenas. É mais ou menos o que fazemos aí no Brasil: não podemos garantir que não seremos assaltados, mas, nem por isso, andamos cheios de jóias, por ruas suspeitas à noite. A gente sempre prefere "não dar chance para o azar".

A mensagem que eu quero passar para vocês é a seguinte: o risco é real, mas não é maior do que os riscos que todos nós corremos todos os dias, só pelo fato de estarmos vivos. É chato que isso esteja acontecendo, a gente preferia que fosse diferente. Mas, vocês sabem, eu sou sempre otimista. Acredito mesmo que vamos conseguir sair dessa, principalmente quando olho para trás na história e percebo que já houve situações igualmente ruins que se resolveram (Hitler, Guerra Fria, etc.). Acredito que a situação que estamos vivendo vai exigir de nós tolerância em relação às diferenças. É o que devemos exercitar todos os dias e ensinar às nossas crianças: as pessoas são diferentes, acreditam em coisas diferentes, agem de maneira diferente. E nós precisamos aceitar e conviver com isso.

domingo, março 21, 2004

Nunca pensei que um dia eu ia contar essa história... Mas o tempo, ah o tempo... Ele cura qualquer coisa.

Bem, tudo aconteceu logo que nos mudamos para cá. Já tínhamos feito nossa inscrição no sistema de saúde francês e precisávamos declarar minha gravidez. A partir do quinto mês de gestação as grávidas têm direito a atendimento 100% gratuito, mas, para isso, um médico precisava atestar o "estado interessante" de madame. E eu também precisava encontrar de uma vez um médico para me acompanhar!

O Vidal teve a idéia de pedir uma dica para sua professora, esposa do orientador, que é brasileira e que teve uma filha na França. Perfeito! Mandou um e-mail para ela explicando a situação e dizendo: "...Não conhecemos ninguém aqui. Não temos nenhuma referência de médico. Achamos um pouco estranho e desconfortável simplesmente procurar um nome na lista e 'voilá, este será o nosso médico!'."

A resposta dela veio logo e foi a seguinte: "Eu posso dar o nome da
minha ginecologista, não sei se ela é obstetra. Eu a conheço há 1 ano e a encontrei pelo catálogo de telefone".

Ainda bem que foi por e-mail, assim ninguém pôde ver nossa cara de tacho. Quando o Vidal mencionou "lista", estava justamente pensando na lista telefônica, que foi exatamente o que a Esther fez. Bem, se deu certo com ela, porque não daria conosco, não é mesmo?

Usei as páginas amarelas pela Internet para selecionar ginecologistas que também fossem obstetras em Saint-Sébastien. A tecnologia é uma maravilha! Em poucos segundos eu tinha uma lista com alguns nomes. Era só ligar para qualquer um deles, já que eu não tinha restrição nenhuma. Quer dizer, quase nenhuma! Na verdade, não tive muita sorte com ginecologistas mulheres na minha vida. E meu ginecologista brasileiro (responsável por toda a família, diga-se de passagem) já nos atende há 15 anos. Preferia que fosse um médico. Eu sei, eu sei, pensamento machista, mas, fazer o quê? O problema é que aqui todos os médicos são chamados pelo sobrenome precedido da palavra "Doutor". Não tem feminino, nem masculino (assim como jornalista em português). Só pelo nome, não dá pra saber se é homem ou mulher. Eu não tinha opção mesmo, então resolvi deixar esse último e pequeno detalhe para lá. Eu já estava escolhendo um médico pela lista telefônica, não é? Peguei o primeiro nome da lista e liguei. Era início de outubro, portanto, eu estava com 28 semanas de gestação. Essa informação eu sabia bem, afinal, todas as vezes que nos fazem perguntas sobre a gravidez eles querem saber de quantas semanas e não de quantos meses a gente está. Eu estava preparada para tudo!

- Bom dia, gostaria de marcar uma consulta com Doutor Sobrenome. (Não lembro qual era...)

- Eu tenho um horário para o dia... deixe-me ver... 6 de março.

Achei que eu tinha entendido errado, afinal, era dia 6 de outubro, a secretária não podia estar sugerindo uma consulta para uma data cinco meses na frente!

- Quando?

- 6 de março.

Era isso mesmo.

- Olha, acho que não vai dar. Eu estou grávida e, em seis de março, o bebê já vai estar com quase três meses...

- Ah! A senhora está grávida. Bem, vai ter de ser uma consulta de emergência então... Deixe-me ver... Não... Não... Não... A Senhora faz questão de ser atendida por Doutor Sobrenome?

"Minha filha, eu peguei esse telefone nas páginas amarelas, você acha que eu faço questão de alguma coisa?"

- Não. Na verdade, não.

- Então eu posso sugerir uma consulta com Doutor Labat (esse nome eu lembro bem... Nunca vou esquecer!). Existe um horário para atendimento emergencial. Qual é o mês da gestação?

"Mês? Como assim mês... Sei lá! Sei que são 28 semanas... Ainda vou ter de fazer conta?"

- Ahn... ("estamos no início de outubro") É... ("o nascimento está previsto para fim de dezembro") Bem... ("dá quase três meses") Hum... ("se uma gravidez dura nove meses, então...") Seis meses!

- Então posso marcar para 7 de novembro às 13h10.

"Esse é o horário emergencial? Se um dia eu estiver para morrer e for precisar de uma consulta de emergência aqui na França vou me lembrar de ligar com um mês de antecedência!"

Chegou o dia sete de novembro. O Felipe estava na escola, o dia estava bonito, eu tomei um banho e decidi ir a pé. Dava uns dois kilômetros da nossa casa até o consultório. Saí com uma hora de antecedência para não me atrasar.

Tive uma certa dificuldade para achar o consultório, mas enfim consegui. Entrei e fiquei na sala de espera... esperando. Tinha mais algumas mulheres e eu fiquei imaginando como seria o médico quando a primeira paciente foi chamada... por uma médica! Bom, quem sabe aquele não seria o dia ideal para que acabasse meu preconceito machista contra as médicas ginecologistas? Tudo foi ao acaso, a começar pela própria médica. Talvez isso fosse a providência divina agindo a fim de me fazer rever meus conceitos. Eu acredito nessas coisas.

Mais de 40 minutos de atraso. Estava começando a me irritar quando chegou a minha vez:

- Madame Martins?

Levantei, vesti meu sorriso mais simpático de brasileira-recém-chegada-na-França e fui até a porta do consultório. O sorriso começou a esmorecer ali mesmo:

- Mas você está grávida!

Fiquei pensando qual seria o problema, afinal, mulheres grávidas procuram ginecologistas, não é? Ou será que no primeiro mundo as coisas são diferentes... Achei que não tinha entendido direito. Ainda estávamos paradas na porta do consultório.

- Sou brasileira. Cheguei na França faz quase dois meses e precisava de uma declaração de gravidez e de um médico para me acompanhar...

- De quantos meses você está?

- Sete.

- Não! Na França os médicos não acompanham as pacientes no final da gravidez! Nesse período você deve procurar um obstetra.

- Sim, mas foi o que eu fiz. Procurei nas páginas amarelas um ginecologista e obstetra.

- Mas eu não sou obstetra.

E nós ainda paradas na porta. Achei que tinha de tomar uma atitude: entrei no consultório! Eu precisava da maldita declaração e, além disso, se eu saísse dali não tinha idéia de onde deveria ir para parir.

Ela não tinha outra alternativa. Entrou atrás de mim.

- Me atrasei um pouco mas o que acontece é que hoje todo mundo que marcou consulta veio.

Pelo jeito aqui os médicos praticam o overbooking como as companhias aéreas. Uma sacanagem pra vender mais lugares do que existem no avião confiando que algumas pessoas vão se atrasar ou desistir. Quando vai todo mundo, os últimos a chegar têm um problemão pra resolver. Eu tinha sido vítima de um overbooking ginecológico. Não acreditei!

Fiquei observando a médica. Um cabelo espetado, mal cuidado, mal pintado. Uma aparência de qualquer coisa, menos de médica. E, depois daquela recepção, decidi que não tinha ido com as fuças dela. Mas eu precisava da declaração. Achei que era melhor continuar sendo simpática:

- Aqui está minha carteirinha de gestante. Meu médico no Brasil registrou todos os exames e os dados referentes a esta gravidez e...

- Como eu disse, na França os médicos só acompanham a paciente até o sétimo mês. Depois você deve se encaminhar para o local onde vai ser o parto. Você já sabe onde vai ser?

- Não! E...

- Não vai ser fácil encontrar um local. Tão próximo assim do parto, não vai ter ninguém disponível para você!

Já comecei a imaginar a cena: eu deitada na cama, com as pernas dobradas, um lençol sobre os joelhos, suada, mordendo uma fronha para abafar os urros e minha mãe gritando para o Vidal: "Traga lençóis limpos e água quente!"... Nunca entendi o porquê da água quente. Será que é para escaldar o bebê quando nasce?

- A data prevista pelo seu médico é 29 de dezembro? Estranho. Estou vendo aqui que pela data da última menstruação a sua data provável de ovulação é (qualquer coisa que eu não lembro agora) e, pelas minhas contas isso daria 5 de janeiro!

- Meu médico me explicou que, como não é possível saber a data exata da ovulação e que a única data certa é a da última menstruação, ele faz os cálculos por essa data. Talvez seja por isso que há uma diferença na...

- Na França nós não fazemos assim. Se a data da última menstruação é essa, então a data prevista para o parto é 5 de janeiro! Mas então você está de oito meses? Eu não poderia estar atendendo!

- Sim, mas eu liguei há um mês atrás. E falei para a secretária meu tempo de gestação e...

- É mas a secretária não pode saber tudo! Ela não pode fazer uma consulta por telefone, não é? Bem, deixe ver o que eu posso fazer.

Vaca! Por que será que alguém chama uma mulher de vaca quando quer ofender? Logo a vaca. Um bichinho de olhos doces, de aparência meiga. Nada a ver com o ser estúpido que estava na minha frente. Ela estava falando de novo...

- Estou vendo aqui que é a segunda gravidez. O parto foi normal?

- Não. Foi uma cesariana.

- Por quê?

- Eu tive uma diabete gestacional. Meu médico me explicou que nessas situações a gravidez não pode passar de 40 semanas. No final desse período eu não tinha nenhuma dilatação e o bebê não estava encaixado, então...

- Na França nós não faríamos isso!

Cadela! Outra injustiça. Se o cão é o melhor amigo do homem, ou seja, alguém que nos escuta, nos compreende, porque a cadela também não seria? Nada a ver com aquele ser, além de estúpido, intransigente que estava na minha frente. Ela continuava a falar:

- O que foi que ele escreveu aqui?! Mas ele não podia ter escrito isso! E os exames de toxoplasmose?

- Eu fiz dois, os resultados estão...

- Aqui na França nós fazemos todos os meses! Bem, vou ter de fazer o exame, não é mesmo? Tire a roupa e sente ali.

Como assim, tire a roupa e sente ali. E a salinha? Nem um biombo? E onde está a assistente? Nem um lençol, nem um aventalzinho? E se essa mulher, que só pertence ao grupo dos humanos por puro acaso, resolver me assediar sexualmente? Eu não fui MESMO com as fuças suínas dela. Mas, enfim, não tinha o que fazer, ou melhor, tinha: tirei a roupa e sentei na cadeira.

Ela começou o exame. Apalpa aqui, aperta ali. Pegou aquele instrumento de fazer o exame de colo de útero e mandou ver. Tudo isso com a gentileza de um hipopótamo macho. Quer dizer, estou exagerando. Um hipopótamo deve ser muito mais delicado.

Nesse momento, as lágrimas começaram a escorrer. Eu simplesmente não consegui me controlar.

Ela terminou o exame. Com aquele barrigão eu tive uma certa dificuldade para sair daquela cadeira, e é claro que fulana nem se dignou a me dar uma mãozinha. Eu chorava quase sem parar e ela nem tinha percebido! Quer dizer, enquanto eu me debatia para sair da cadeira ela notou que eu estava chorando e fez o seguinte comentário:

- O exame te machucou?

- É. Um pouquinho... ("Ah... Pelo menos agora ela ia demonstrar um pouco de compaixão...")

- Estranho!

Virou as costas e foi para a mesa.

Jumenta! Está aí outra injustiça, um bicho útil desses não tem nada a ver com aquele ser, além de estúpido e intransigente, inútil que estava na minha frente.

- Você engordou demais! Isso não está certo.

Piranha! Agora sim! Esse é um bichinho muito feio, que não sabe fazer nada mais do que morder, machucar e irritar muito quem chega perto. Está aí uma ofensa justa!

Eu estava me vestindo, tentando com todas as forças segurar as lágrimas que insistiam em pular dos meus olhos como cachoeiras depois de um temporal. Ela pegou um gravadorzinho e começou a ditar para si mesma:

- A paciente tem 34 anos, segunda gestação, cesariana no primeiro parto, presumivelmente por distocia cervical... humpf! É o que o médico escreveu aqui... Primeira consulta... bem... não sabe em qual maternidade vai ser o parto... hummm... somente dois exames de toxoplasmose... humpf!

Ela desligou o gravador e começou a preencher uns papéis. Eu perguntei:

- Já que não é o ginecologista que acompanha o final da gravidez, que lugares eu devo procurar?

- Você não tem opção. A sua única alternativa é o CHU.

- Ah...

- Aqui estão os exames que você deve fazer. Você também deve ligar para o hospital hoje mesmo e marcar uma consulta. Depois ligue aqui e passe para a minha secretária o nome do médico que vai atendê-la para eu saber a quem devo encaminhar o relatório.

Ligou o gravadorzinho de novo:

- Data presumida do parto para 29 de dezembro... humpf!!! ... é isso o que está escrito no documento que o médico brasileiro preencheu, mas pelas minhas contas o parto deve acontecer em 5 de janeiro...

Nesse momento eu tentei explicar de novo a diferença nas datas, mas eu falar e uma vaca mugir dava no mesmo. Na verdade, acho que se uma vaca mugisse ela prestaria mais atenção. Questão de identificação, né?

O sangue ferveu de vez! "Olha aqui! Quem é você para falar do MEU médico com esse ar de sarcasmo? Ética é uma coisa que só existe entre médicos de um mesmo país?" Levantei da cadeira. "Ele é um DOUTOR DE VERDADE, já que está fazendo um doutorado! É especialista em gravidez de alto risco e sabe MUITO BEM quando é que uma cesariana é indicada, já que ELE SIM, é obstetra!" Avancei sobre a mesa, livros e papéis caíram pelo chão. Estava de dedo em riste, cada vez mais perto da maldita. "E mais! Eu não tenho obrigação nenhuma de saber como as coisas acontecem no seu país, já que cheguei aqui há pouco tempo! O MÍNIMO que você deveria fazer é me EXPLICAR como as coisas funcionam e me ORIENTAR com profissionalismo, já que simpatia eu imagino que seja impossível para você". As mãos já estavam avançando para o pescoço dela. "Você deve ser é uma mal amada! Provavelmente, por causa dessa sua cara horrorosa e desse seu cabelo espetado ninguém quer nem chegar perto de você, sua bruxa!!!". Minhas mãos estavam em torno do pescoço dela. Eu apertava com força mesmo. Nem os olhos esbugalhados e a pele arroxeada em torno da boca escancarada me davam o sinal de que estava na hora de parar e...

- ... cheque ou dinheiro?

- Ahn?

- Perguntei se o pagamento vai ser em cheque ou dinheiro?

"Como é que é? Eu ainda vou ter de pagar por isso?"

- Dinheiro. Está aqui... E a declaração de gravidez?

- O quê? Mas isso deve ser preenchido no quinto mês!

Nem tentei explicar que no quinto mês eu nem estava na França ainda. Não sei latir... Fiquei apenas esperando.

- Vou assinar, mas essa declaração pode ser preenchida por qualquer médico.

E eu passei por tudo aquilo sem precisar? Pensei em me atirar na parede arranhando a face e gritando histericamente, mas preferi levantar e ir embora.

Entreguei o dinheiro, pequei os papéis dos exames e a declaração. Foi meio difícil enxergar com as lágrimas turvando minha visão, mas eu consegui. Antes mesmo de sair do consultório já coloquei os óculos escuros. Desisti de tentar achar bichos para descrever aquela mulher. Os coitados não mereciam aquela comparação. Nem mesmo a cobra!

Saí do consultório, caminhei até uma praça, sentei no banquinho e chorei. Chorei por mais de 40 minutos sem nem me preocupar se tinha alguém observando ou não. Chorei toda a raiva, humilhação e dor pelas quais eu tinha passado. Fiquei imaginando mil vinganças contra a médica: quem sabe uma denúncia anônima por maus tratos psicológicos? Passar com o carro numa poça d'água e encharcá-la de lama (não dava! Naquela época a gente não tinha carro...). Já sei! O computador dela um dia ia estragar, ela ia me pedir uma força e eu ia instalar um anti-vírus desatualizado! Também não dava, ela não usava computador. Ainda por cima era antiquada! Queria pegar o primeiro avião de volta para o Brasil!

Durante esse tempo, eu ficava pensando no Felipe. Ele estava nos primeiros dias de escola e ainda chorava muito para ficar lá. A gente pedia para ele tentar não chorar e ele dizia:

- Não dá. Tem uma coisa aqui dentro e o choro me pega...

Eu nunca o entendi tanto quanto naquele momento. Queria ir lá, tirá-lo da escola e abraçá-lo muito e dizer que ele tinha razão: quando o choro pega não dá pra não chorar. Só que, assim como ele, mesmo com o choro pegando, tinha de ir à escola, eu tinha de ir ao laboratório fazer aqueles exames.

Fui. Todo mundo deve ter estranhado os óculos escuros e o nariz vermelho e inchado. Problema deles.

Voltei para casa a pé. Parei numa confeitaria no meio do caminho. Naquele momento, só muitos doces poderiam aplacar a minha angústia. Uma travessa de brigadeiros, por exemplo. Mas, como os franceses não conhecem o brigadeiro, me contentei com uma bomba de chocolate mesmo.

Aquele também era o dia da primeira apresentação que o Vidal faria para o orientador. Ele estava esperançoso e eu também. Queria que pelo menos alguma coisa tivesse dado certo naquela sexta-feira (que nem era 13). Cheguei em casa e liguei para o Vidal:

- Como é que foi a apresentação?

- Uma catástrofe!

Desatei a chorar de novo. E ainda continuei chorando por causa desse episódio até o dia seguinte. Depois foi passando.

A providência divina tinha decidido me pregar uma peça. De muito mau gosto, é verdade. Mas, para compensar, colocou médicas maravilhosas no meu caminho depois. Tudo bem. Elas diminuíram meu preconceito. Ah! E elas confirmaram todos os procedimentos que meu médico tinha tomado. Só mesmo aquela anta que nem obstetra era é que se achava no direto de criticar.

A apresentação do Vidal realmente tinha sido uma catástrofe, mas também com ele as coisas foram melhorando depois. O tempo, como eu disse, cura tudo e, como vocês podem ver, eu nem fiquei traumatizada com o episódio...

Por falar nisso, tem algum psicólogo de plantão por aí?

quinta-feira, março 18, 2004

Oi gente! Só passei por aqui para dar um sinal de vida. Aliás, um sinal de semi-vida... Estou um verdadeiro bagaço! O Felipe teve uma daquelas crises de bronquite. Elas agoram passam relativamente rápido, só que sempre começam em torno da meia-noite e vão até o fim da tarde do dia seguinte. O resultado? Duas noites sem dormir, dores pelo corpo e um cansaço...

Além disso, o Vidal está emendando a terceira semana de trabalho pesado. Ele está preparando um artigo para um congresso e a única coisa boa disso é que os artigos sempre têm data limite para serem entregues, o que significa que está próximo o fim desse período. A data de entrega é 22 de março, segunda-feira. Já viram como vai ser nosso fim de semana, né?

Para coroar, a Ana Luíza descobriu há alguns dias que "quem não chora não mama" e também não fica no colo o tempo todo sendo embalado de pé! É isso aí! Ela resolveu começar a "botar as manguinhas de fora" e demonstrar que não estava gostando daquela história de eu dizer que ela era muito calminha. Agora bota a "boca no trombone" todos os dias e "puxa a brasa para a sardinha dela" sempre que possível. Será que eu esqueci algum ditado?

Ah sim, como "Deus ajuda a quem cedo madruga", vou caçar a minha cama. Mesmo porque, mesmo se Deus não ajudasse, nenhum dos meus dois pimpolhos ia me deixar dormir muito.

Até!

terça-feira, março 09, 2004

Prometi notícias do Felipe... Aí vão elas!

Ele anda meio agitado nos últimos meses. Será que é porque as coisas mudaram um pouquinho pra ele? Vejamos... Ele perdeu a babá, mudou de casa, de cidade, de país. Chegou e ficou mais de dois meses sem falar com ninguém (além de mim e do Vidal, é claro) porque todo mundo aqui só fala francês. Não tinha mais os programas que ele conhecia na televisão e, quando tinha, era, obviamente, em francês. Depois ele foi pra escola, passar o dia todo junto com crianças! Coisa boa, se não fosse por um detalhe: as crianças só falam francês! Pra coroar tudo isso: a chegada de uma irmã, que não fala francês, mas que, em compensação, diminuiu o tempo que a mãe e o pai tinham para ele. Será que esqueci alguma coisa?

Acho que ele tem todos os motivos pra estar meio injuriado conosco, né? Eu e o Vidal andamos conversando e chegamos à conclusão que o Felipe tem duas opções: ou vai ser um "cidadão do mundo", super descolado, independente, bem resolvido, ou nós vamos ter de fazer um empréstimo no banco pra pagar a terapia...

Na verdade, o que está acontecendo tem uma explicação "científica". Recentemente, li um livro chamado "Criando Meninos" (às vezes a gente precisa ler esse tipo de coisa para, pelo menos, errar com respaldo profissional...) Na verdade, o livro é "meia boca". Parece mais uma reportagem da revista Cláudia. Mas tem uma coisa escrita lá que fez muito sentido pra mim (e à qual estou me apegando fervorosamente pra não enlouquecer de vez). O que acontece é o seguinte: em torno dos quatro anos, ocorre a liberação de uma dose cavalar de testosterona no organismo dos meninos. O efeito prático disso é que o mancebo começa a ter arroubos de macheza e passa a querer a lutar (o Vidal que o diga), bater, arrotar, falar palavrão, coçar o saco, todas essas delicadezas associadas ao sexo forte. Felizmente isso passa lá pelos cinco anos para só voltar na puberdade (em alguns casos, definitivamente, é preciso reconhecer). Ai... Será que demora muito pra chegar setembro? É quando ele completa cinco anos. No dia seguinte já não vou mais tolerar essas coisas, afinal ele não vai ter mais desculpa hormonal, né?

Vou contar pra vocês uma coisa: haja energia pra ser mãe de um super-herói. Sim, porque ele é o Power Rangers. Os tais dos hormônios são poderosos mesmo! As coisas são mais ou menos assim: ele luta de espada ou de golpes ninja todos os dias (sozinho ou contra o Vidal), adora comentários escatológicos (quanto mais nojento, melhor) e (essa é a pior parte) tem as brigas...

Temos as brigas com hora marcada, por exemplo, na hora de colocar roupa, na hora de tomar banho (com as brigas intermediárias para lavar o cabelo e para sair do banho). Além dessas, temos as "brigas-surpresa" que podem acontecer a qualquer momento e por motivos realmente sérios como eu passar na frente da televisão exatamente na hora em que estava reprisando pela nonagésima sétima vez (no dia) a propaganda do boneco do Action Man. Quem já viu o comportamento dele acha engraçado. Ele fica empertigado (sempre quis usar essa palavra!), enruga a testa até juntar as sobrancelhas, arregala bem os olhos, expande as ventas do nariz e, de dedo em riste, diz: "Fica quieta! Não fala nem uma palavra!" E, ai de mim se eu tentar suspirar alguma coisa. Ele vira as costas e sai pisando duro! Legal, né? Legal pra vocês que estão de longe e não precisam educar essa criança! A gente fica aqui sem saber o que fazer: conversar? Ignorar? Dar risada? Espancar? Sentar no chão e chorar arrancando os cabelos e rasgando as vestes até aparecer algum vizinho com o pessoal do sanatório e a camisa de força?

Ele também já aprendeu o uso dos palavrões. Merda! É o preferido. A gente não pode reclamar porque também fala, e, como dificilmente vamos conseguir parar de proferir essas gentilezas, o melhor é explicar a, como direi, "etiqueta" da coisa. Esses dias ele me disse:

- Você é uma merda!

Ao que eu respondi:

- Você não pode falar isso para as pessoas! Você já me viu falar isso pra você ou pro seu pai? Não senhor, isso eu não vou permitir!

Aí ele ficou ofendido, bufou, se virou pra sair da maneira teatral de sempre e, durante a manobra, derrubou uma cadeira. Aí ele disse:

- Merda!

E eu respondi:

- Ah! Agora sim. Esse é o momento certo de falar... (a gente tem de educar para todas as situações, né?)

O problema é que ele é cabeça dura mesmo. Já estou vendo a minha cunhada Consuelo dizendo: "Isso aí é Martins puro!". A professora me disse, logo nos primeiros dias: "Il est têtu, n'est-ce pas? S'il ne veut pas une chose, il ne veut pas!". Traduzindo… "Ele é teimoso, né? Se ele não quer uma coisa, não quer e pronto!". Aí eu respondi: "É uma coisa que ele herdou do pai dele, eu não tenho nada a ver com isso!".

O mais engraçado é que o Felipe é a criança mais amorosa que eu conheço! Quando está tudo bem ele não economiza nos abraços, nos beijos e nos elogios. Comigo, com o Vidal, com a Ana Luíza. Ele já disse coisas como "Eu gosto de ser filho de vocês" e "Eu gosto que a Ana Luíza está aqui em casa. Ela demorou pra chegar, mas eu acho bem legal que ela chegou" (essa foi no domingo passado). É ou não é um amor? Esses dias, numa briga comigo, ele falou: "... e eu vou acordar a Ana Luíza! Vou lá e vou dar beijo nela até ela acordar!".

Falando em beijos... Há alguns meses, sempre que ele ficava com muito sono, começava a sessão "beijos". Era geralmente comigo. Uma profusão deles, sem parar. Um dia até foi meio constrangedor. Já tínhamos chegado aqui, e, naquele momento, estávamos no escritório da Segurança Social fazendo a nossa inscrição. Conversas sérias, profissionalismo dos dois lados (dos funcionários e do nosso) e o Felipe no meu colo. De repente, ele me abraçou e me deu um beijo. "Oh! Como ele é fofinho!". Outros dois beijos. "Ai que querido!". Mais cinco beijos. "Tá bom. Tá bom". Mais quinze beijos! "Fecha o olhinho e dorme, tá?" Mais vinte e cinco beijos (risadinha sem graça para os franceses) "Ele fica assim quando está com sono...." (Mais risadinhas sem graça, agora da parte deles). O problema é que ele puxava o meu pescoço e ficava dando beijos no rosto. Eu ficava curvada, tentando prestar atenção ao que a mocinha dizia e ela tentando não prestar atenção ao que o Felipe fazia. Se eu tentasse sentar direito era pior: ele saía lascando beijos no braço, na mão, na barriga, onde a boca pegasse. Tive de sair da sala e fazer ele dormir no corredor para poder continuar a conversa... Mas, pensando bem, sinto saudade da fase dos beijos...

Agora, quando ele está com sono, vira um monstro com sete cabeças, vinte e um focinhos, quarenta e nove braços que solta labaredas por todas as bocas (isso ele herdou de mim, tenho de reconhecer...). Geralmente esse é o momento em que acontecem as brigas mais ferozes.

O mais legal é que agora ele já briga em francês! Esses dias, na hora do banho:

- Tira a roupa, Felipe.

- No!

- Tira a roupa e entra no chuveiro, Felipe.

- NO!! Laisse-moi! (Me deixa!)

- Anda. Tô mandando!

- JE NE SUIS PLUS (eu não sou mais)... Como é que filho mesmo em francês?

- Fils.

- JE NE SUIS PLUS TON FILS!!!

A gente aproveita todos os momentos pra ensinar francês pra ele... Aliás, o francês... Essa é uma coisa maravilhosa! É impressionante a evolução. A cada dia ele nos surpreende com uma expressão nova. Começou devagar, com poucas palavras, mas que ele falava o tempo todo: "No!" (Não!), "Attends! (Espera!)", "Arrête! (Pára!)". No início, ele misturava as coisas:

- Acorda, Felipe...

- Pra quê?

- Pra ir pra escola...

- Não! Pas de escola! (Pas de é uma maneira de dizer "Nada de...").

Depois, ele começou a ficar metido... No dia em que estávamos voltando de Paris (isso mesmo, naquele trem...) ele estava sentado com meu pai no banco. O Felipe estava "ensinando" meu pai a contar até dez em francês. No final da "aula" meu pai disse:

- Vou contar até dez, então.

- Tá.

- Un, deux, trois, quatre, cinq, six, sept, huit, neuf, dix! Que tal?

- Você falou certo. Mas a voz tá toda errada.

Já estava corrigindo a pronúncia, o danadinho! Veja que ele já tem o espírito do professor: um pouco de motivação, depois a crítica.

Um dia, ficamos espantados. Eu estava no hospital, o Vidal tinha saído com meu pai e ele estava em casa com a minha mãe. Tocou o telefone e ele atendeu:

- Alu? (Ele já falava o alô com sotaque, tanto que um dia o Vidal ligou pra casa e não reconheceu a voz dele. Achou que tinha errado o número e que um francês tinha atendido. Começou a falar em francês e só depois de algumas frases percebeu que era o Felipe!)

- Papa avec Papi. (Papai com vovô)

- Maman à l'hôpital. (Mamãe no hospital)

- Mami ne parle pas français. (Vovó não fala francês).

E desligou. Depois descobrimos que era a gerente do banco. E ela entendeu o recado!

Agora, a coisa já está assim: pra brincar, só francês. Os desenhos na televisão e as brincadeiras na escola são em francês, então ele não sabe mais brincar em português. Mesmo quando está brincando sozinho... Já peguei ele falando dormindo... em francês. Muitas vezes, mesmo quando conversa conosco, ele fala francês. E é de uma hora pra outra, sem motivo e sem aviso. Ontem, por exemplo, ele estava almoçando e nós estávamos conversando sobre alguma coisa qualquer, quando ele repentinamente mudou de assunto (e de idioma):

- Tu sais, à l'école il y a un jeu. Le jeu de la caisse. (Você sabe, na escola tem um jogo. O jogo da caixa).

- Ah, bon? (É mesmo?)

- Oué! (É! Na verdade, deveria ser oui, mas até isso a ferinha já pegou: o sotaque!)

- Et qu'est-ce que c'est que ça, la caísse? (E o que é isso: a caixa? Eu queria saber o que significava a palavra caísse, que eu não tinha entendido direito...)

- Je ne sais pas comment dire en français, alors je vais dire en portugais, d'accord? (Eu não sei como dizer em francês, então vou dizer em português, tá?)

- D'accord! (Tá!)

- La caisse de la giraffe.

Entenderam? Não? Mas ele falou "em bom português"! Nem ele percebeu que tinha falado em francês...

A escola e a televisão são as grandes responsáveis por essa fluência. A professora já fez vários elogios. Não só ao francês, mas às habilidades dele como um todo. Ela disse que não há diferença nenhuma entre ele (que não freqüentava escola) e uma criança que já estava há mais de um ano no maternal. Ele recorta e cola com destreza. Pinta super bem e sem sair um milímetro dos limites do desenho (e, se por acaso sair um pouquinho ele já joga o papel longe e fala: "Merda!". Ah, esses Martins...). A única coisa que ele ainda não aceitou foi a comida. Aliás, isso é uma coisa que ele detesta: o almoço na escola. Eu já perguntei pra ele:

- Felipe, você gosta de morar aqui na França?

- Não!

- Por quê?

- Porque aqui tem almoço na escola.

Ele disse que só quer ir à escola quando chegar no Brasil ("Porque lá não tem almoço!").

Logo nos primeiros dias, a professora disse: "Olha, ele não quis comer nada". Na verdade, depois de uns dias ele já comia alguma coisa: pão seco. Em pé, encostado na parede ao lado da janela. Nem água pra acompanhar! Depois, as coisas foram evoluindo: ele passou a se sentar no chão, mas continuava encostado na parede ao lado da janela! Isso durou muito tempo.

Hoje já está bem melhor: ele se senta à mesa. Mas continua comendo só pão seco (ainda não vai nem água pra acompanhar). Quer dizer, muito de vez em quando ele come um queijo ou uma batata. Mas isso aconteceu só recentemente...

Não pensem que nós não tentamos. Foram várias as estratégias:

Conversa: "Felipe, você tem de comer pra ficar fortinho..."

Chantagem emocional: "A mamãe ia ficar tão feliz se você comesse..."

Prêmio: "Quando você comer na escola por uma semana vai ganhar um boneco do Homem Aranha". (Até hoje ele está sem o boneco...)

Rispidez: "Olha aqui. Você tem de comer e pronto!"

Castigo: "A partir de agora, vai perder todos os dias alguma coisa até começar a comer na escola. E vamos começar com o filme dos Power Rangers na televisão!".

E assim fizemos. Ele foi perdendo filmes, jogos, brinquedos e nada! Como disse a professora, ele é têtu, né? Nessas alturas, a Ana Luíza já tinha nascido e o clima não estava dos melhores. Ele não demonstrou ciúme diretamente, mas ficou muito agressivo. Comigo, principalmente. Nesse bolo todo, a história da comida estava virando um tormento. Então decidimos o seguinte: ele não é obrigado a comer na escola. Mas é obrigado a sentar com os colegas e a comer quando chegar em casa. Tem dado certo. Foi depois disso que ele começou a experimentar as coisas por lá. Quem sabe até 2006 ele já não está até tomando água?

O esquema dos castigos só continuou para outras situações: fez alguma coisa grave (bateu, gritou, exagerou na briga) perde uma coisa importante por um tempo. Pode ser um filme ou um jogo no computador, um brinquedo, a possibilidade de ver algum dos seus "amores" na televisão (Power Rangers, Hércules ou um seriado chamado Missão Pirata)... Na verdade, ele perde aquilo que ele está querendo fazer no momento. O problema, é que ele já começou a fazer "avaliações de custo-benefício":

- Felipe, pára jogar pedrinhas nessa poça d'água, você está se sujando todo.

Ploc! (Barulho da pedrinha caindo na água)

- Felipe! Já falei pra parar!

Ploc! Ploc!

- FELIPE! Pára A-GO-RA!

- Se eu não parar o que é que eu vou perder?

Fora (tudo) isso, só aquela mania de, como dizer, observar a limpeza da casa. Eu já contei que ele se acha no direito de me dar umas "duras" de vez em quando, né? No domingo de Carnaval estava um dia horrível. Frio, chovendo. Além do mais, era domingo. E Carnaval. Ficamos vegetando de pijama o dia inteiro. Quando chegou a noite ele entrou no quarto, cama desarrumada, como toda boa cama de domingo, e disse:

- Mamãe! Já é de noite e a casa ficou toda desmanchada.

Eu já estava preparada para isso! A resposta estava na ponta da língua:

- E porque você não arrumou então?

- Sozinho?!

Ponto pra ele!

Ele até tem o direito de reclamar porque (quase) sempre que eu peço ajuda ele comparece. Às vezes, eu nem peço ajuda e ele se oferece pra fazer também. Claro que eu nunca recuso, mesmo que isso signifique mais trabalho para mim ou mais tempo para terminar (minha futura nora vai me agradecer por isso!). Vejam só o que aconteceu no dia em que eu fiz um faxinão no piso da casa toda:

[essa foto foi retirada por mim]


Antes que alguém me denuncie para algum organismo contra o trabalho infantil quero dizer três coisas: primeiro, foi ele quem quis; segundo, ele foi café-com-leite; terceiro, eu tomei todas as precauções de segurança no trabalho. Vejam que ele estava usando luvas!

E ainda bem que fizemos essa limpeza... Alguns dias depois aconteceu um fato que me deixou em estado de choque por algumas horas.

Ele estava comendo cereais e assistindo à televisão. Ele não come os cereais com leite, prefere sequinho mesmo. Só que ele ficava "sacizando" na frente da televisão, acabou derrubando o potinho e os cereais caíram todos no chão.

- Olha aí! Não falei que ia acabar caindo?

Juntei meio por cima o que dava e falei:

- Vai buscar aquela pazinha com a vassourinha (uma coisa ótima que achei no mercado...) pra limpar isso aqui.

- Já vou...

Bem nessa hora começou a passar Power Rangers. Nem mesmo os próprios Power Rangers em pessoa, transformados em Megazord e com espada Ninja em punho conseguiriam tirá-lo da frente da televisão nesse momento, quem dirá eu. Resolvi me poupar o episódio de mais uma discussão e decidi esperar pelo fim do seriado. Deitei no sofá já que não dava pra ficar com as pernas para baixo porque o chão estava cheio de cereais e fiquei olhando para a televisão. Só que eu estava exausta, Power Rangers não é bem o tipo de programa que mantém a minha atenção e, além do mais, eu já tinha visto aquele mesmo episódio umas quinze vezes, no mínimo. Eu tinha certeza que não ia ser daquela vez que o "do mal" ia ganhar do "do bem". Acabei cochilando. Quer dizer, caí nos braços de Morfeu valendo! Quando acordei, tinha acabado o Power Rangers e já estava quase terminando o Sonic que passa depois. Olhei para o chão e ele estava limpinho.

- Que legal Fê! Você já varreu o chão?

- Não varri.

- Como não varreu? Está limpinho...

- Eu lambi.

- O quê?!!!! Você está brincando, não está?

- Não. Eu lambi mesmo.

Pela cara dele, eu vi que era verdade. Fiquei catatônica por alguns segundos. Ainda bem que a gente tinha lavado o chão com água sanitária uns dias antes. Acho que foi por isso que ele se sentiu confiante. Era ele mesmo quem tinha limpado aquela parte do chão!

quinta-feira, março 04, 2004

Hoje está fazendo um dia horroroso! Chuva desde cedo. Aquela chuvinha mansa que parece que vai durar dias! Pelo menos a temperatura aumentou um pouquinho. Tivemos muito frio nos últimos dias...

Bem, nada de muitas novidades hoje. Só quero agradecer as diversas manifestações de alegria com minhas historiazinhas. Acho que eu me divirto muito mais escrevendo do que vocês lendo... Pena que logo devem acabar os momentos pitorescos. Mas, nada de pânico! Ainda tenho alguns episódios interessantes pra contar pra vocês! E quanto à possibilidade de talvez transformar isso em livro quero dizer... quem sabe? Se mais quinze pessoas fizerem essa sugestão sou capaz até de achar que dá mesmo :)

Como eu já disse pra muita gente, só vejo um problema: quem é que vai querer ler? Todo mundo que é gentil o suficiente pra nos acompanhar já está lendo, né? Tudo bem que as famílias são grandes e a que gente tem muitos amigos... Taí! Uma boa idéia! Eu escrevo o livro e todo mundo compra vários exemplares, assim a gente vai poder comprar as passagens e voltar para o Brasil. Aha! Agora sim vamos ver o quanto vocês querem nos ver de novo por aí!

Bem, estou preparando uma novidade: meu livro de receitas online. Todas as receitas que estou testando e até mesmo "criando" (aqueles que não acreditavam que isso seria possível vão se surpreender!) vou disponibilizar no nosso site. Não pensem que eu estou sendo só boazinha, não! É que, do jeito que eu sou "organizada" corro o risco de esquecer ou de perder as receitas.

E, na minha próxima "publicação", notícias do Felipe. Quero que vocês saibam como tem sido essa experiência para o meu fofinho, e como estão as coisas no momento. Mas, vou deixar pra depois. Estou fazendo coisas no computador hoje e ele está "rápido feito um cágado paralítico" (atenção ao acento da palavra cÁgado, hein?)...